Animais marinhos e a importância do Ipirelo para a Cultura costeira em Rio Grande/RS

Por Felipe Nobrega em 17 de outubro de 2020

Basicamente o texto The wonder whale: a commodity, a monster, a show and an icon problematiza a relação humana com as baleias e o espetáculo macabro de pessoas se encaminharem a determinadas praias para não só assistir esses animais vivos, mas, fundamentalmente, mortos. O nome disso é “Cultura”, e ela acontece através das nossas práticas, como é o caso do fascínio pelos restos de uma baleia, ossadas de animais marinhos, ou simplesmente turismo de gosto duvidoso.

E foi a partir desse trabalho das pesquisadoras Cristina Brito, Nina Vieira e Joana Freitas que percebi que, na praia do Cassino, na cidade de Rio Grande, esse tipo de busca pela morte na praia também estava presente. Na infância não foi somente uma vez que a minha família se reuniu para ir até a beira do mar ver algum animal morto – quanto maior a proporção física, maior o número de comentários no balneário.

É uma prática habitual, mas imediatamente veio à lembrança o outro lado dessa relação, e que sempre foi muito maior e mais impactante: a preservação da vida nos oceanos na costa da cidade de Rio Grande.

Na verdade, essa percepção aconteceu depois de pesquisa uma série de jornais e me deparar com uma quantidade enorme de notícias de resgate, salvamentos e cuidados com os animais marinhos devido aos serviços prestados pela Universidade Federal do Rio Grande (FURG), Centro de Recuperação de Animais Marinhos (CRAM), Núcleo de Educação e Monitoramento Ambiental (NEMA) e Museu Oceanográfico Eliezer Carvalho Rios. Eram dezenas de reportagens, notícias, situações registradas pela imprensa local (Jornal Agora) mostrando que as representações da relação sujeitos-oceano poderiam ser outras por aqui… e de fato são!

Mais de uma geração cresceu lendo, ou vendo na televisão notícias de cuidados e, em última instância, Educação Ambiental. Isso altera completamente a percepção desse tipo de elo entre pessoas e os oceanos, cria outra sensibilidade, a qual sem dúvidas existe na praia do Cassino. E se a Cultura está sempre em disputa, nesse caso parece que a vitória está ficando com o bom senso ambiental, e capacidade de criar novos horizontes a serem replicados por outras localidades costeiras.

Aqui algumas capas encontradas durante a pesquisa:

E, pra encerrar, um registro do Ipirelo, o Leão-Marinho que por quase três décadas foi símbolo desse tipo de cuidado feito pelas instituições citadas acima. Ele foi resgatado em 1993 na Lagoa dos Patos pelo CRAM, e apesar das inúmeras tentativas de retorno ao seu habitat natural, o leão-marinho não teve condições de saúde, e ficou sob os cuidados dos técnicos locais junto ao museu oceanográfico.

Ipirelo mereceu uma nota públicada no site da Furg, e aqui fica um trecho para que se possa entender, justamente, uma Cultura ambiental ligada aos oceanos:

“ (…) Ipirelo foi protagonista de uma fantástica ressignificação, para se tornar um símbolo do Museu Oceanográfico, da cidade do Rio Grande e da luta coletiva pela proteção à Vida.

Ipirelo viveu muito bem e descansou após alguns meses de enfermidade devido à extrema-idade que alcançou. Deixará a tristeza da saudade, este mal sem remédio, mas deixa, também, a ternura de um animal que a todos encantou, educou e mobilizou. Nossa sensação, ladeada pela grande tristeza, é a de dever cumprido e gratidão a este ser que tantos cativou e que sempre será um símbolo de nosso sempiterno compromisso em cuidar da Natureza”

 Dr. Lauro Barcellos – Diretor do Museu Oceanográfico/FURG


Escrito por: Felipe Nobrega

Graduação em História (FURG), mestrado em História (UFRGS) e doutorando em Educação Ambiental (CAPES/FURG). Tema de pesquisa: Fenômenos Ambientais Costeiros e Mudanças Climáticas.

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