Eu ainda não sou mãe de ninguém

Por Rachel Hidalgo em 22 de setembro de 2020

Os movimentos que lutam pela diminuição das desigualdades entre homens e mulheres iniciaram por inspiração dos ideais da Revolução Francesa e se espalharam por outras populações, inclusive na América Latina. Em um primeiro momento, tendo como pauta principal a reforma social, política e econômica, encabeçado pelo que ficou conhecido como Sufrágio Feminino: em que reivindicavam os direitos de mulheres à educação, ao divórcio, à participação política e também ao trabalho em suas áreas de formação. Esse foi o primeiro movimento feminista da história e que logo sofreu tentativas de desmonte por meio de organizações sexistas que mantinham o domínio político nas mãos dos homens, utilizando como prerrogativa a ideia de que mulheres eram incapazes de atuar em espaços de decisão.  

Depois de um período de silenciamento e obrigações culturais que prevaleciam nas sociedades – como as domésticas, para citar apenas um exemplo de uma grande lista de imposições – os anos 60 foi cenário de uma verdadeira revolução nos costumes, que transformou os parâmetros conceituais do que seria, então, a dimensão política. De acordo com Costa (2005), o feminismo da época conseguiu trazer para o espaço de discussão política questões que antes eram tratadas somente em âmbito privado, isto é, para além dos debates a respeito do Estado, às suas instituições, e a tudo mais que era identificado como “político”, passou-se a discutir também a vida doméstica, familiar e sexual, identificada anteriormente como “pessoal” (2005, p. 2). 

Tirar as opressões vividas por mulheres de “dentro de casa” e dar à elas um caráter político fizeram com que muitas pessoas entendessem, finalmente, como circunstâncias pessoais são estruturas por fatores políticos e, nesse sentido, como as relações eram ditadas somente por um perfil da população: homens, brancos, heteronormativos, cristãos e capitalistas. Assim, sem nenhuma representatividade, pode-se dizer que o resultado não poderia ser diferente: regulações que colocam as mulheres em papel de subordinação; preconceituosas no que diz respeito a cor de pele, orientação sexual e religiosa; além de universalizar a visão de mundo e as decisões sobre a vida no Planeta.

Já as resistências às ditaduras-civis-militares nas Américas Latinas, na década de 70, trouxeram ondas feministas importantes, com a inclusão de pautas específicas na luta geral, como a de mulheres pretas, indigenas e homosexuais. Sobre esse período, Sonia Alvarez (2001) explica que a ideia era desenhar um “mosaico de diversidades”

“los movimientos de mujeres de los países latino-americanos organizaron numerosos talleres, manifestaciones y actividades culturales sobre temas que abarcaban desde el racismo y la lucha de las negras y de las indígenas, hasta el progresivo empobrecimiento de la mujer, la sexualidad y los derechos reproductivos” (ÁLVAREZ, 2001, p. 90).   

Assim, o movimento feminista foi se dividindo em diferentes pautas para tornar possível especificar demandas e se fortalecendo como um movimento maior, que tem como princípio norteador o fim das decisões hierarquizadas nas sociedades. As mulheres que fizeram, e fazem, parte dessas agendas, muitas vezes, são vistas como “mulher-macho”, ou seja, que querem fazer aquilo que sempre fora atribuído como papel do homem. E não é nenhuma surpresa que, ao pensar nas ideias feministas pela perspectiva ambiental, esses enfrentamentos sejam também caracterizados por aspectos que procuram “explicações” para a sua razão de ser.

Se lutar por direitos igualitários é coisa de mulher que quer ser homem, algo inconcebível; lutar pelo meio ambiente só pode ser tolerado se visto como coisa de mãe – é o que reflete Gilsa Helena Barcellos no artigo “Mulheres e lutas socioambientais: as interseções entre o global e local” (2013). Para a autora, as mulheres que ressaltam aspectos biológicos para defender sua legitimidade na luta ambiental, reforçando estereótipos que têm relação com o cuidado de sua família, encontram caminhos menos inviáveis nas sociedades patriarcais, com base na subordinação sexual. Entretanto, ainda que estes motivos, que são igualmente legítimos, sejam a principal bandeira levantada por algumas delas, esse canal “mais aceitável” para a luta ainda impede a possibilidade de enxergá-las como indivíduo. Que pode ser mãe, ter maior parte de seu interesse atrelado a qualidade de vida de seus/suas filhos/as; como também pode ser apenas cidadã interessada em lutar pela mesma agenda: uma que não destrua o Planeta. 

Essa ligação das mulheres com a natureza vem da noção de Gaia como a “Mãe Natureza”, “Deusa Virgem”,  que coloca o planeta Terra como uma mãe que abriga “seus filhos” no útero. Muitas culturas possuem essa ideia do “sagrado feminino”, a exemplo da Virgem Maria nos ideais cristãos e também em algumas linhas do pensamento indígena latino/norte-americano. Um autor muito reconhecido na educação ambiental, Leonardo Boff, escreve: “Cresce seminalmente um novo paradigma de re-ligação, de reencantamento pela natureza e de com-paixão pelos que sofrem, inaugura-se uma nova ternura para com a vida e um sentimento autêntico de pertença amorosa à Mãe-Terra” (BOFF, 1999, p. 10). 

Tal metáfora que, por um lado, empresta simbologias positivas para a Ciência, auxiliando na construção de um novo olhar sobre o mundo, por outro, potencializa o estereótipo feminino com a questão do cuidar, inclusive, de punir. Em um recente trabalho do mesmo autor (2020) sobre a atual pandemia de Coronavírus, aponta: “[…] a própria Terra irá se livrar de nós, seres excessivamente agressivos e maléficos ao sistema-vida”. Nesse sentido, tanto a relação do cuidado, como a de castigo, inspirada na dimensão humana sobre a responsabilidade com seus/suas filhos/as, contribui para ideias essencialistas. E também para o imaginário de que a mulher sempre deve ser atrelada à maternidade. 

Essa decisão, de ser mãe ou não, é uma questão política, entre muitas outras que compõem a vida humana. E para sublinhar a dimensão ambiental como tudo aquilo que faz parte do ambiente em que vivemos, ou seja, humanos/as, animais, paisagens, plantas, rios, mas também as relações que se desenvolvem ai, no campo do trabalho e da vida familiar, é importante reivindicar o universo de diferenças que fazem parte do gênero feminino e não tentar explicar, de uma forma ou de outra, a presença das mulheres em espaços de decisão. A justificativa é uma só: somos parte do todo. Na verdade, a maior parte, 51,8%, segundo dados da PNAD Contínua (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua) de 2019. 

Colocar o ideal da luta de todas as mulheres pelo meio ambiente em sua biologia, como uma ideia universal, configura-se na diminuição das suas batalhas, dos seus esforços nas ciências, nas áreas técnicas, nas representações políticas, e em muitos outros espaços em que a presença feminina, quando existente, é severamente desconsiderada. Para além da bela poesia de tantos/as artistas, da importância e da riqueza das culturas; e de bons/as escritores/as, como Leonardo Boff, ainda preciso dizer: a Terra não é mãe de ninguém. Nem eu sou também. E muitas outras mulheres podem nem ter o desejo de ser. Cada uma delas pode atuar na defesa pelo meio ambiente por diferentes ideais políticos, mas não, necessariamente, devem ser ligadas às temáticas da proteção por um instinto maternal, intrínseco aos seus corpos. 

Se batalhamos por uma transformação no modo de se relacionar com o nosso meio, pode ser por uma série de elementos. Quem sabe, porque, talvez, a relevância do assunto esteja cada vez mais latente? Porque também nos informamos sobre uma proposta de desenvolvimento que não contempla a todos/as? Porque também lemos, produzimos e temos capacidade de orientar? Porque algumas de nós atuam diretamente com o ecossistema na esfera do trabalho, como pescadoras, agricultoras, e assistimos a uma degradação cada dia mais grave? Pensa bem, podemos ser mulheres de muitas naturezas.

Referências:

ALVAREZ, Sonia. Los feminismos latino-americanos se globalizan: tendencias de los años 90 y retos para un nuevo milenio In: BARRAZA, Luisa Tarres (Org). Género y cultura en América Latina: Volumen I. Bogotá: Taurus, 2001. Disponível em: https://www.jstor.org/stable/j.ctv47w7zp.7?seq=1#metadata_info_tab_contents . Acesso em 25 de agosto de 2020. 

BOFF, Leonardo. Saber cuidar: ética pelo humano – compaixão pela Terra. Editora Vozes: Rio de Janeiro, 1999. 

BOFF, Leonardo. A Terra se defende. Disponível em: http://www.ihu.unisinos.br/78-noticias/597421-a-terra-se-defende-artigo-de-leonardo-boff Acesso em: 25 de agosto de 2020. 

COSTA, Ana Alice Alcantara. O movimento feminista no Brasil: dinâmicas de uma intervenção política In: Revista Gênero 5.2 (2005). Disponível em: file:///D:/DOWNLOADS/31137-106408-1-PB.pdf . Acesso em 25 de agosto de 2020.


Escrito por: Rachel Hidalgo

Graduação em Comunicação Social (UNISANTOS), licencianda em Artes Visuais (UNIP), mestrado em Educação Ambiental (CAPES/FURG) e doutoranda no mesmo programa (CNPq/FURG). Tema de pesquisa: Educomunicação Socioambiental por meio do suporte audiovisual.

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