A expectativa de uma profissão e as expectativas dos profissionais

Por Altemir Viana em 22 de setembro de 2020

Neste capítulo, Bourdieu então aborda a profissão fotógrafo. O autor descreve profissionais que atestam a total desordem entre uma classe de
trabalhadores, onde vigora o cada um por si. Os profissionais não sabem viver o comum, não sabem fazer o que querem e não se atentam que poderiam obter maiores lucros com seu trabalho se praticassem o entendimento entre si.

Bourdieu coloca que estes profissionais fotógrafos quando convidados a falar de sua profissão, de suas originalidades e singularidades, estes se opõe mais a outros fotógrafos do que profissionais de outras profissões. Só amenizam suas posições quando projetam, utopicamente, uma profissão de fotógrafo organizada. Mas esta falta de unidade tem suas características principais relacionadas muito mais com a profissão do que relacionadas as características dos profissionais. Isso acontecia devido
a grande maioria dos fotógrafos estar ligados a empresas diferentes e a uma menor parte de profissionais liberais free-lancers.

Isto dificultava a unicidade necessária a uma sindicalização, por exemplo. A demanda de novos fotógrafos, também forçava uma maior concorrência entre os profissionais. As condicionantes salariais também eram díspares. Enquanto alguns empregados contavam com seus salários que entretanto também eram díspares entre sí, outros cotidianamente procuravam, como que um artesão, angariar sustento e manutenção de equipamentos e meios a sua produção fotográfica.

A obrigatoriedade de aceite ao fazer todas as fases necessárias a obtenção de uma imagem fotográfica, fez surgir uma nova profissão ligada ao mundo da fotografia, a do laboratorista fotográfico. Os profissionais então, se viram tanto na necessidade de obtenção de novos equipamentos como máquinas, estúdios além da substituição de seus equipamentos que
notaram surgir uma profissão especificamente ligada as necessidades de quem se ocuparia especificamente pelo ato fotográfico, tornando consequentemente necessária a diferenciação e qualificação dos fotógrafos em seus estilos fotográficos, como fotógrafos de moda, da
imprensa, retratistas, de espetáculos, de obras de arte e etc..

Desta forma, surge então uma nova questão. Seria a atividade fotográfica uma atividade artística, ligada a arte ou uma profissão qualquer, como as outras profissões? Fica definido, que qualquer atividade fotográfica, seja ela de imprensa, de retrato, de espetáculos, ou de qualquer ordem seja, pelo menos reconhecida como uma atividade profissional. Não existiam escolas de fotografia, nem diplomas ou sequer necessidade de aprendizagem junto a um fotógrafo profissional, desta forma, qualquer um que desejasse tornar-se um fotógrafo poderia fazê-lo. A diferenciação profissional acontecia pelo conhecimento técnico. Mas este conhecimento técnico, se por um lado elevava a qualidade de um trabalho fotográfico, ao mesmo tempo tirava a possibilidade de maiores ganhos financeiros pelo fotógrafo, pois a relação de qualificação era inversa a salários maiores, o que rebaixava as expectativas profissionais.

Do ponto de vista de uma evolução, esta falta de expectativa não poderia afetar o desenvolvimento da fotografia e de profissionais ligados a ela? A realidade é que a cada dia precisasse menos conhecimento do fotógrafo, pois os equipamentos a cada nova geração possuem mecanismos possíveis de solucionar problemas até então necessários de manejo humano. O fotógrafo possuía então, a base de truques e habilidades manuais através de pesquisas e experimentos, o conhecimento, necessário a produção de imagens fotográficas.

Este conhecimento erguia-se desta forma, através de tentativas, fracassos e sucessos. Esta metologia fortalecia a homogeneidade do grupo e desta forma, evitava que forasteiros ao conhecimento adentrassem a profissão. Os novatos encontravam ali uma forma de ascensão, passando por fases de conhecimento e formação. Desta forma, acusa-se a formação de um
bom fotógrafo, a determinado estilo, seu conhecimento atrelado ao seu gosto, prazer de trabalho ao estilo seguido, justificando que ao fotógrafo de obras primas era necessário bagagem, ao fotógrafo de publicidade um dom e ao fotógrafo industrial um grande sentido de gosto.


Os fotógrafos surgem de diferentes classes. De classes mais populares, como uma formação escolar primária e de classe média com uma formação secundária, o que privilegia profissionalmente o de classes menos abastadas, pois começam a fazer parte dos grupos de fotografia mais cedo, oportunizando maior conhecimento profissional. Os jovens oriundos de classes superiores, delegam a fotografia como mercado de trabalho e preferem eleger o ensino superior como vocação. A vocação é algo proibido a indivíduos de origem social modesta. Os custos para atingir a formação superior elitizam este acesso.

Assim, a fotografia por fim, participa de jogos ideológicos pois não requer uma formação formalmente organizada e oportuniza desta forma o onírico em uma formação profissional. Desta forma, a profissão de fotógrafo, baseada em uma educação informal, quando possível a jovens de classe media, que teoricamente teriam maiores possibilidades de alcançar um status vocacional, ficar relacionada a uma experiência de desencontros entre aspirações e realizações que culminam as escolhas destes jovens como algo pejorativo e que mesmo assim seja admitido como uma escolha vocacional, devemos entender que uma das características do meio profissional, é que as escolhas vocacionais são inerentes e possíveis a todos indivíduos, independentemente de sua classe social. Isto suscita a convicção subjetiva de uma qualificação carismática.

A heterogeneidade existente entre os fotógrafos assim como a diversidade de sentidos a que podem atribuir a quem exerce a profissão é a verdade que oculta a afirmação dos fotógrafos sobre a falta de unidade e parcerias entre os profissionais da fotografia. A variedade de situações possíveis que aparecem a estes profissionais, proporciona estudos profícuos que ela propõe. De qualquer forma, de toda problemática fica com certeza um entendimento, o profissional da fotografia merece o respeito de todos e de todas as profissões.

BORDIEU, P. Homens de ofício e homens de qualidade In: uma arte média: ensaio sobre os usos sociais da fotografia. Barcelona: Editorial G. Gili, 2003. PP. 285-330.


Escrito por: Altemir Viana

Fotógrafo. Jornalista repórter fotográfico CRP 18517/RS. Graduado licenciatura em Artes Plásticas e discente do do 5º semestre do curso de bacharel em artes visuais pela Fundação Universidade Federal do Rio Grande. Coordena o NUFO- Núcleo de Fotografia Secom - FURG e os projetos CDOC-AV e Narrativas Urbanas do ILA - FURG. Interessado no estudo sobre imagens, educação, estética, meio ambiente e humanidades.

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