Resenha do livro: O fim do império cognitivo de Boaventura de Sousa Santos.

Por Guilherme Almeida em 17 de agosto de 2020

Proposta: O objetivo deste trabalho é criar um conjunto de resenhas, uma para cada capítulo desta importantíssima obra do Boaventura de Sousa Santos. Optei por esse modelo devido ao riquíssimo conteúdo de cada capítulo e que hoje se faz extremamente importante para refletirmos sobre as estruturas dominantes na produção de conhecimento, além de apresentar novos caminhos para antigas problemáticas no campo das lutas sociais e políticas. Esta primeira resenha é referente a abertura do obra, finalizando no início do primeiro capítulo.
 
Primeiras palavras:
 
Protagonizamos um episódio muito crítico na história da humanidade no qual estamos experimentando as piores formas de desigualdade e discriminação social que antes eram inaceitáveis socialmente e que, nos últimos anos, vem se tornando politicamente e socialmente aceitáveis (Santos, Boaventura de Souza. p.7, 2019). Os agentes sociais e políticos que rivalizavam com as estruturas do status quo em nome de alternativas e soluções políticas e sociais, vem, nos últimos anos, gradativamente perdendo força, e de forma mais abrangente parecem estar em um estado de inércia em torno dos mesmos conflitos e narrativas – comum em nosso país e, também, na experiência da América latina como um todo.
 
As ideologias modernas (epistemologias do Norte) de luta e contestação sociopolítica foram – em diferentes níveis – cooptadas pelo neoliberalismo (Santos, Boaventura de Souza. Pag.7, 2019). Isso não quer dizer que não exista formas de resistência, entretanto, elas são cada vez menos efetivas em desenvolver proposições que realmente ofereça uma alternativa concreta e que não sejam sustentadas nas mesmas e antigas narrativas e ídolos.
 
A resistência vem se manifestando cada vez menos dentro das instituições do Estado, das instituições sociais e privadas, não seguindo mais o modelo de mobilização política que eram hegemônicas no século XX: partidos políticos, movimentos sociais, sindicatos e militância. Segundo Boaventura de Sousa Santos “a política dominante torna-se epistemológica quando é capaz de defender ativamente que o único conhecimento válido que existe é aquele que ratifica a sua própria supremacia.” (p. 7, 2019). Numa espécie de “Zeitgeist” ou, em outras palavras “espírito da época”, se faz necessário desenvolver e/ou validar alternativas epistemológicas para lidar com os atuais impasses em nosso modelo civilizatório moderno euro-centrado que, na leitura de Santos (p.7, 2019) serão “explicitamente políticos”. Isso nos leva a um impasse e demonstra a urgente necessidade de reinventar e/ou reconstruir a política confrontacional através de uma transformação epistemológica.
 
No século XIX, surgiram as Teses sobre Feuerbach escrita por Karl Marx, que era famosamente conhecida como tese XI. Em suas teses Marx levantava uma provocação sobre o papel dos filósofos que “interpretaram o mundo de diversas formas; mas a questão que realmente importa é: como podemos transformá-lo?” (Santos, Boaventura de Souza. p.7, 2019). Segundo Santos:
 
“Essa tese viria a tornar-se fundamento essencial do pensamento crítico ocidentalcêntrico, reivindicando a centralidade do conceito práxis como síntese entre teoria e prática.” (SANTOS, Boaventura de Souza. p. 8, 2019).
 
Quase dois séculos depois se torna fundamental que retornemos alguns passos à interpretação do mundo com o objetivo de reconstruí-lo, mas é claro, antes mesmo de transformá-lo.
 
As teorias críticas desenvolvidas entre o século XIX e principalmente no XX nasceram com objetivo de transformar o mundo… infelizmente, não conseguiram fazê-lo dentro dos ideais defendidos, ao contrário disso, afastaram-se cada vez mais de suas bases sofrendo com uma onda negacionista alimentada por eles próprios (esquerda política), por meio de ações totalmente equivocadas e prejudiciais ao nosso contexto sociopolítico contemporâneo. Fomos de um momento de avanços sociais e econômicos para a desconfiança, medo e violência numa crise generalizada.
 
Os avanços sociais que, depois de certo momento, eram reconhecidos como irreversíveis foram sucateados e qualquer sinal de esperança e positividade que podia haver foram usurpadas cotidianamente da população. Além disso, Santos diz que “o pensamento do conservador moderno, está sempre dedicado a prevenção dos tipos de transformações defendidas pelo pensamento crítico” (p. 8, 2019), e parece ter tido por um minuto maior êxito. De modo que a queda gradual das alternativas defendidas pelo pensamento crítico progressista soa para os ouvidos dos conservadores como algo extremo e impossível em nosso tempo, “se tornou possível afirmar que nos últimos duzentos anos eram considerados demasiado e obviamente errado dizer-se: não existe alternativa.” (Santos, Boaventura de Souza. p. 8, 2019).
 
Hoje em dia, a afirmação de que não existe mais nenhuma alternativa – em nível de política pública – vem ganhando cada vez mais força, adquirindo, então, o valor epistemológico.  O político alçará a condição de epistemologia ao pensar em qualquer ação política que quebre com status quo atual, entretanto, hoje em dia, pensar em algo desse caráter significa fantasiar contra a situação concreta dos governos de extrema direita e neoliberais que comandam as ações políticas e que agem no sentido contrário das epistemologias do Sul.
 
A ordem social atual descarta a necessidade de qualquer ideia e/ou ação política crítica e transformadora, e se tal ordem de funcionamento social não fosse tão abusiva com os grupos sociais oprimidos poderíamos vislumbrar algum horizonte de possibilidades. (Santos, Boaventura de Souza. p. 8, 2019). Nesse sentido o autor nos propõe algumas dúvidas: “Não sendo esse o caso, como pensar e fortalecer tais resistências e lutas?” “Recorrendo ao mesmo pensamento crítico eurocentrado que foi sequestrado pelo conservadorismo?” “Não se configurará em um esforço repetitivo e contraproducente?” “Por que desistiu de formular alternativas críveis que explicassem e fortalecessem as lutas contra a dominação e a opressão?”.
 
Como cidadão brasileiro e protagonista/espectador dos acontecimentos sociopolíticos do Brasil tenho minha leitura – é claro, tenho que ressaltar que é minha leitura feita a partir das minhas experiências de vida e formação cognitiva -, penso que, em relação ao conflito entre política/políticos x sociedade a população se sentiu extremamente traída pelo Partido dos Trabalhadores (PT) e com a política de forma geral. O PT representava um sinal de esperança para um grupo social no Brasil que sempre foi subalternizado e essa esperança se caracterizou com ganhos econômicos, ascensões sociais, acessibilidade e o mínimo de dignidade. Então, no momento em que esse representante se mostrou imerso em um mar de escândalos de corrupção e com a ajuda da mídia, de grupos políticos e das elites o PT afundou-se ainda mais em uma onda anti-PT/esquerda. Os problemas não param por aí, as lideranças desse mesmo partido mostram-se inflexíveis com a possibilidade de uma retratação pública diante da eminente responsabilidade dos acontecimentos recentes, além da incapacidade de criar uma nova narrativa que reúna novamente a população em torno de um ideal e, também, construir uma frente ampla com outros partidos da esquerda contra o fascismo e o neoliberalismo no Brasil.
 
Claro, minha análise é bem sintética e resumida, entretanto, tento contextualizar em alguns níveis as respostas para as perguntas feitas pelo autor, mas poderia citar outros problemas que dê resposta às indagações do autor: nossa experiência colonial e aqui incluo a escravidão, o racismo, o patriarcado, a xenofobia, o apagamento das manifestações sociais do Brasil desde sua gênese, o epistemicídio entre outros.
 
O fato é: os detentores das teorias críticas no Brasil estão totalmente descredibilizados, seja na esfera política, seja na esfera social; somado a isso passamos por uma onda mundial de obscurantismo e negacionismo que brinca com a ignorância da polução, possível graças ao projeto de deseducação do nosso país. Segundo Santos:
 
“[…] para responder essas questões é imprescindível questionar os alicerces epistemológico do pensamento crítico eurocêntrico e ir além dele, por mais brilhante e magnífico que seja o conjunto de teorias que ele gerou.” (p. 9, 2019).  
 
Buscando resgatar o sentimento de esperança e o ideal de que ainda existem caminhos a ser seguidos e, também, reconhecendo e legitimando movimentos de luta contra a opressão que continuam a ter espaço no mundo contemporâneo e que são “portadoras de alternativas potenciais” (Santos, Boaventura de Souza. p. 9, 2019), se faz urgente a necessidade de uma mudança epistemológica. O argumento deste livro é que as alternativas necessárias para as mudanças necessárias se encontra nas epistemologias do Sul. Santos defende a necessidade de uma “décima segunda (12ª) tese: temos de transformar o mundo ao mesmo tempo em que permanentemente o reinterpretamos; tanto quanto a própria transformação, a reinterpretação do mundo é uma tarefa coletiva.” (Santos, Boaventura de Souza. p. 9, 2019).
 
Finalizando a primeira parte dessa resenha, Santos enumera seis pilares fundamentais para a proposição desta nova tese: “1º- não precisamos de alternativas, e sim de um pensamento alternativo de alternativas; 2º- a reinterpretação permanente do mundo será possível apenas em contexto de luta e, por esse motivo, não pode ser levada a cabo como tarefa autônoma; 3º- sendo certos que as lutas mobilizam múltiplos tipos de conhecimentos, a reinterpretação permanente do mundo não pode ser produzida por um tipo único de conhecimento; 4º- dada a centralidade das lutas sociais contra a dominação, se, por hipótese absurda, os grupos sociais oprimidos deixassem de lutar contra a opressão, ou porque não sentissem necessidade de fazê-lo […] não haveria espaço para as epistemologias do Sul nem, efetivamente, necessidade delas; 5º- não precisamos de uma nova teoria de revolução; precisamos sim revolucionar a teoria; 6º- uma vez que o trabalho exigido pela permanente reinterpretação do mundo, necessariamente paralela à respectiva transformação, é um trabalho coletivo, não há nele espaço para filósofos de vanguarda. Pelo contrário, as epistemologias do Sul exigem intelectuais de retaguarda, intelectuais capazes de contribuir com seu saber para reforço das lutas sociais contra a dominação e a opressão em que estão empenhados.” (Santos, Boaventura de Souza. p. 9/10, 2019).
 
Referências
 
SANTOS. Boaventura de Souza. Fim do Império Cognitivo: a afirmação das epistemologias do Sul. 1 ed. Belo Horizonte: Autêntica Editoria, 2019.

Escrito por: Guilherme Almeida

Estudante de História - Licenciatura pela Universidade Federal do Rio Grande, no atual momento estou cursando o último ano da Graduação. Minha linha de pesquisa se concentra na área da Educação.

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