“Nasci para Assalto à Banco e Carro Forte”(?): O Pensamento Freireano como Método de Combate ao(s) Marionetista(s)

Por Rafael Simione Paiva em 21 de agosto de 2020

Um novo mês e, portanto, uma nova edição para o dossiê do Ribombo é lançada, e como de costume, sempre com temas muito interessantes de se trabalhar. Portanto, a proposta desse novo dossiê se baseia em fazermos o esforço intelectual no sentido de tentarmos “descomplicar” o pensamento de algum/a autor/a que estudamos ou, se achássemos melhor, que propúnhamos alguma reflexão a partir de uma ideia desse autor/a. Diante disso, escolhi falar de um autor que muito me surpreendeu quando comecei a me informar melhor sobre ele, assim também quando passei a ler alguns de seus livros, trata-se de Paulo Freire.

Mesmo cursando História Bacharelado, um curso que por si só não possui muita proximidade com Educação, em razão de minha participação no Ribombo, me vi na obrigação de me informar um pouco mais sobre esse universo que tanto tem a nos ensinar, e nisso incluo tanto nós, alunos universitários, quanto professores universitários, principalmente. E iniciando leituras do respectivo campo, me interessei por um nome que já muito ouvi falar, mas que nunca tinha lido nada a respeito, então fui até a biblioteca da FURG e peguei o livro cujo título mais me interessou, o Pedagogia do Oprimido (1987).
 
Este texto que escrevo não é o primeiro em que me utilizo dos pensamentos de Freire, mas é o primeiro em que proponho uma discussão sobre a importância de seu método libertário de ensino em conjunto com outro assunto que já há algum tempo eu tenho interesse em escrever algo sobre, que é a música, mais especificamente o Rap. Gênero que me identifico tanto por desde pequeno ouvir e de presenciar em meu cotidiano muitas das coisas narradas nas letras, quanto por enxergar nele a capacidade de dialogar com as pessoas da periferia que nenhum outro gênero musical possui nos dias de hoje, claro, essa é uma visão estritamente pessoal. E essa capacidade de diálogo existente entre o Rap e a periferia me traz lembranças de um outro livro de Paulo Freire que li, o chamado Extensão ou Comunicação? (1983).
 
Bem introduzido o texto, cabe aqui minha explicação quanto ao título de meu texto, o trecho entre aspas, foi retirado de uma música chamada “Brincando de Marionetes”, presente no álbum “Estamos de Luto” (1998) do grupo de Rap paulista Facção Central – se cabe aqui uma opinião, pessoalmente, esse grupo disputa com os Racionais Mc’s o posto de maior grupo de Rap brasileiro da história, mas essa discussão fica para outro momento.
 
“Nasci pra assalto à banco e carro forte […]” é uma afirmação do cantor da parte destacada da música, Eduardo Taddeo, onde se segue:
 
“Pra ser o elo da farinha da playboyzada pra favela,
O justiceiro que respira morte,
O assassino que abre sua cabeça no meio por dinheiro,
Ou o sequestrador que te queima, te tortura,
Te esfaqueia no cativeiro,
Que pega seu filho pelo pescoço de refém,
Exige carro, armas e espalha os miolos dele,
Como se fosse um cachorro (PA-PA-PA),
Como se fosse ninguém […]”
 
 
A princípio, alguns podem achar um tanto quanto agressivas as letras de Rap, e, realmente, algumas são, no entanto, que melhor maneira de retratar o cotidiano da sua “quebrada” do que narrando literalmente o que se passa na vida de sua família, de seus amigos e vizinhos? E vos digo, amparado pelo excelente Extensão ou Comunicação? (1983), o educador que se dirige ao ensino/aprendizado de um público periférico deve, antes de começar a passar lições e mais lições, conhecer o cotidiano daquelas pessoas, como modos de fazer e de se comportar, de que maneiras se manifestam as culturas do local e, principalmente, conhecer o diálogo das pessoas. Aprender a se comunicar antes de ensinar, esse é o lema!
 
E por que utilizar o Rap como uma metodologia educativa? Porque ele é capaz de, além de proporcionar às pessoas de fora de determinado cotidiano retratado nas letras como se dão as relações entre os moradores da localidade e aprender algumas expressões de linguagem para quando for se dirigir à essa população, ele também serve como uma outra maneira de despertar nas pessoas o pensamento crítico, a chamada consciência de classe, uma percepção e mesmo um entendimento de que as condições econômicas e sociais à que elas estão sujeitas são provenientes de um sistema que quer que elas estejam naquelas condições para que outras pessoas estejam em condições melhores (FREIRE, 1987), ou seja, o Rap apresenta-se como uma ação contra-hegemônica, transmitindo aquilo que inúmeros pesquisadores com mais de 30 anos de carreira não conseguem transmitir com a mesma qualidade de lucidez.
 
Por fim, não me alongando demais, até porque a proposta é de que sejamos sucintos enquanto refletimos sobre ou com algum/a pensador/a, deixo aqui a indicação da conhecida Pedagogia Freireana para se propor uma discussão acerca de auxiliarmos as pessoas que vivem na periferia de conquistarem essa consciência sobre os motivos que as fazem viver naquelas condições e assim, com a utilização do Rap como uma ferramenta aliado à metodologia de ensino freireana, como mencionado acima, possamos alcançar a vitória em nosso combate contra o(s) marionetista(s). Assim, deixo aqui os dizeres finais de Eduardo Taddeo ao fim de “Brincando de Marionetes”:
 
“Aí mano, aposente seu calibre,
Dispense a farinha, desfaça a quadrilha,
O nosso sangue, o cadáver embaixo do jornal,
O moleque fumando crack
É o que o sistema brasileiro de corpos quer,
Pobre se matando, pobre trocando tiro entre si,
Pobre morrendo na mão da polícia,
Pobre no cemitério,
Seu trampo e seu estudo brecam o cano do PM,
Mano informado, digno, se valorizando,
É embaçado, mano,
O Brasil treme […]”
 
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
 
FREIRE, P. Extensão ou Comunicação? 7ª ed. São Paulo: Paz e Terra, 1983.
 
_______Pedagogia do Oprimido.17ª. ed. Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1987.
 
CENTRAL, Facção. Brincando de Marionetes. In: CENTRAL, Facção. Estamos de Luto. São Paulo: 1DaSul. Faixa 5.
Escrito por: Rafael Simione Paiva

Graduando em História (FURG). Tema de pesquisa: A potencialidade da Educomunicação no Rap Paulista.

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