Método Científico de Análise da Realidade: Karl Marx e Racionais MCs

Por Rachel Hidalgo em 20 de agosto de 2020

Eu tive a sorte de conhecer o prazer da leitura desde cedo. Comecei com Histórias em Quadrinhos, parti para as coleções infanto-juvenis (a exemplo “Dos Karas”, de Pedro Bandeira), cheguei a época dos mangás… passava bastante tempo na Biblioteca Municipal de São Vicente, litoral de São Paulo. No entanto, ao chegar na universidade, a leitura passou a se transformar também em uma parte do meu trabalho, e isso quer dizer que precisei desenvolver uma leitura dinâmica para captar informações em tempo pré-determinado – algo que tirou um pouquinho do prazer que facilitava o entendimento, bem como construiu determinadas barreiras. Uma delas sempre foi ler Karl Marx.
 
Primeiro porque quem diz ler Marx encontra sempre muito/as ávido/as interlocutores/as pelo caminho, mas não no sentido positivo do diálogo, claro, aqui, generalizando. Se dizer um/a estudioso/a de tal filósofo equivale a chegar em uma das esquinas do bairro anunciando que gosta muito de Racionais. Faça isso e você será obrigado/a a comprovar cantando, palavra por palavra, uma das letras que podem ter mais de dez minutos de duração – isso pode significar cerca de 1.500 palavras (“Tô ouvindo alguém me chamar”, de 1997, figura entre as mais longas do rap nacional).
 
Isso ocorre porque os Racionais MC’s trouxeram uma transformação profunda no campo cultural a partir das injustiças do projeto nacional dos anos 90, principalmente, a respeito da situação prisional no Brasil (OLIVEIRA, 2018). Da mesma forma, Marx criou as bases com as quais foi possível apontar problemas no capitalismo, ampliando perspectivas em relação a uma sociedade de classes. Assim, tanto os Racionais, como Marx, são filósofos de grandes feitos e falar sobre seus trabalhos pode incomodar muita gente.
 
E é por isso que se cria uma áurea de pavor em quem se aproxima, um sentimento de auto-sabotagem que envolve um batimento mental no momento da leitura: “será que eu estou, realmente, entendendo?”.
 
Em relação a Marx, foi pela seleção de um orientador que comecei com um dos tópicos da “Introdução à Economia Política”, escrito pelo autor em Londres, entre 1857 e 1858, incluso nos Grundrisse der Kritik der Politischen Ökonomie. Trata-se de um método científico para compreender a natureza da realidade, que não pode ser estudada como um aglomerado de partes isoladas e, sim, como componentes que formam a totalidade histórico-social, que é também contraditória e complexa (CARDOSO, 1990).
 
O objetivo de Marx (1974) era investigar a economia e a sociedade dominadas pelas leis do capital. Para ele, a melhor maneira de conhecer a sociedade moderna, era conhecer a sua lei econômica. Neste sentido, apontou que o desenvolvimento da sociedade se dá por um processo histórico dirigido por uma legislação determinante da vontade ou da consciência das pessoas e cada período histórico possui as suas leis, fazendo com que os diversos organismos sociais existentes sejam bem distintos uns dos outros. Assim, algumas partes do todo complexo da sociedade podem ser: o modo de produção capitalista, o conjunto das relações sociais, as leis do capital, entre outros.
 
Seu método começa na abstração, que é a forma como o pensamento se apropria da realidade. Dessa forma, parte-se do abstrato para o concreto, ao mesmo tempo em que é necessário também ir do concreto ao abstrato, nesta segunda viagem, na companhia de uma hipótese, para que o resultado não seja um conjunto vazio de abstrações. Um exemplo é a sua noção de objeto de troca: ele isolou um elemento simples para extrair a lei pela qual tal elemento é regido, porém, não para ter um conhecimento isolado sobre a mercadoria, mas sim reconstruir o modo de produção capitalista.
 
Já ao que diz respeito aos Racionais MC’s, fui iniciada pelo meu próprio irmão, a partir do álbum “Raio X do Brasil”, lançado em 1993. “Fim de semana no parque” e “Homem na estrada” marcavam o disco como um dos mais importantes trabalhos musicais da época, tão radical quanto os textos do filósofo mencionado acima, e com uma representação bastante simples da periferia brasileira, capaz de levar as controvérsias sociais a conhecimento de um público distante daquela realidade.
 
Em um trecho de “Fim de semana no parque”, diz:
 
“No último natal papai noel escondeu um brinquedo
Prateado, brilhava no meio do mato
Um menininho de dez anos achou o presente
Era de ferro, com doze balas no pente
E o fim de ano foi melhor pra muita gente”
 
 
Na estrofe, os autores expõem abstração a respeito da relação social entre os/as seres humanos/as que é estabelecida por meio das coisas, em paralelo aos rituais religiosos que, para além de seus significados sagrados, demandam determinadas relações de mercado. Partindo desse prelúdio para algo mais concreto, que é a questão da violência e da segregação sócio-territorial no País, a mensagem abstrata que se coloca na companhia da hipótese é a possibilidade de uma criança encontrar, em um espaço de guerra iminente, uma arma. Por fim, “E fim de ano foi melhor pra muita gente”, é a conclusão dos autores que, ao analisar a situação de alguns grupos sócio-culturais, explanaram não um conhecimento isolado, mas uma nova maneira de enxergar a pobreza no Brasil.
 
Obviamente, tem muito mais para se conhecer sobre o trabalho de Marx além de seu Método da Economia Política (CARDOSO, 1990), bem como também se indica conhecer os álbuns dos Racionais que se seguiram ao longo do tempo, acompanhando distintas fases sócio-econômicas brasileira. Já contando com o perdão dos/as leitores/as que, assim como mencionei no início, sentem-se sempre aturdidos/as com a menção de tais autores, gostaria de finalizar avisando que o presente texto foi escrito com muito respeito pelos trabalhos; apenas como um exercício de escrita; e, não menos importante: com muito orgulho e repetição, sei a letra inteira de “Homem na Estrada” – já os livros de Karl Marx, espero chegar lá, mas estou guardando para quando ficar fluente em alemão.
 
 
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
 
CARDOSO, M. L. Para uma leitura do método de Karl Marx: anotações sobre a “Introdução” de 1857. Cadernos do ICHF. Niterói: UFF, n. 30, setembro 1990.
 
MARX, Karl. Contribuição para a crítica da economia política. Lisboa: Editorial Estampa, 1974.
 
OLIVEIRA, Acauam Silvério de. O Evangelho Marginal dos Racionais MC’s. In: RACIONAIS MC’s. Sobrevivendo no Inferno/ Racionais MC’s. 1ª edição. São Paulo: Companhia das Letras, 2018.

Escrito por: Rachel Hidalgo

Graduação em Comunicação Social (UNISANTOS), licencianda em Artes Visuais (UNIP), mestrado em Educação Ambiental (CAPES/FURG) e doutoranda no mesmo programa (CNPq/FURG). Tema de pesquisa: Educomunicação Socioambiental por meio do suporte audiovisual.

Redes sociais


Textos de Apoio


O Ribombo organiza encontros quinzenais para discutir seus temas de pesquisa e elaborar novos projetos no campo da EA. Clique no botão para ir à página dos textos de apoio de cada reunião

Parceiros


logo furg
logo ppgea

Colunistas