Isabel Cristina de Moura Carvalho: Uma Casa na Educação Ambiental

Por Felipe Nobrega em 18 de agosto de 2020

“A Carvalho”. Essa é uma expressão que um dia você vai ouvir quando estiver com alguém que estude, ou trabalhe com Educação Ambiental. Pode ocorrer de alguém dizer, também, “A Isabel”. Fato é que ela está sempre entre nós, assim como qualquer outra bibliografia que você possa considerar “clássica”, esse nome e sobrenome povoam os textos, discussões, críticas e conversas de bar.
 
Mas para encontrar ela não é preciso estar em um dos corredores da universidade, ou mesmo dentro de um programa de pós-graduação. Pode ser na biblioteca de uma escola pública que você irá topar com um livro dela, mais precisamente uma lombada vermelha com o título “A invenção ecológica”. Conheci Isabel Cristina de Moura Carvalho assim, em meio ao acaso daqueles estantes pouco procuradas, e o que era um nome ganhou vida quando abri as primeiras páginas e encontrei suas ideias e palavras.
 
Formada em Psicologia, com especialização em Educação Básica não formal, mestrado em Psicologia da Educação e doutorado em Educação. Isso é o que está em seu currículo acadêmico, e mostra uma determinada caminhada, a qual irá encontrar na Educação Ambiental uma espécie de casa, a qual todos nós iremos visitar com a frequência de uma amizade que aos poucos ganha forma, jeitos, maneiras de abordagem e, de vez em quando, até críticas – amizade é feita disso também, não é?
 
Ao falar diretamente sobre formação de professores, parece que a Isabel entende com quem está dialogando de forma muito rápida. Ela sabe qual o público que a lê, e isso muda toda forma de organização das suas ideias, que parecem obedecer uma sequência de entendimento do outro/leitor/professor que está ao seu lado, ou batendo na porta da sua casa. E se alguém duvidar disso é só abrir Educação Ambiental: a formação do sujeito ecológico, lançado em 2004 e já reimpresso algumas vezes.
 
E quando a gente começa a ficar familiarizado com a sua forma de escrever, iniciamos uma busca por mais textos, obras, entrevistas, formas de estar próximo dessa pesquisadora que trouxe uma série de perspectivas novas para o campo da Educação Ambiental, e o principal deles é o diálogo com a Antropologia. É com Tim Ingold, antropólogo britânico, a sua parceria capaz de gerar inovação a partir do conceito de “percepção ambiental”, perpassando por esse autor uma forma de perceber os sujeitos, o meio e a natureza.
 
A visão socioambiental orienta-se por uma racionalidade complexa e interdisciplinar e pensa o meio ambiente não como sinônimo de natureza intocada, mas como um campo de interações entre a cultura, a sociedade e a base física e biológica dos processos vitais, no qual todos os termos dessa relação se modificam dinâmica e mutuamente. (CARVALHO, 2008, p. 37).
 
 
Mas é preciso voltar naquele livro da estante da biblioteca, cujo nome completo é: A invenção ecológica – narrativas e trajetórias de Educação Ambiental no Brasil. Ele foi lançado em 2001, já em 2002 ganhou uma segunda edição. Na verdade, ele é a extensão da tese de doutorado da Isabel, que mesmo didática, de fácil compreensão, fica ainda mais acessível nesse livro, que é um esforço que precisa ser reconhecido de transposição didática, quando o pesquisador entende que precisa se comunicar com um número maior de pessoas caso queria que se trabalho ganhe algum sentido na prática.
 
É nesse livro que encontramos o conceito de Educador Ambiental Intérprete, esse investigador que busca o que ela chama de “nexos interpretativos” que cada sociedade, em determinado tempo/espaço, elabora sobre sua relação com o ambiente, e como esses incidem em uma realidade perceptiva (no plano das ideias), e objetiva (ações concretas do cotidiano dos atores sociais).
 
Essa é uma postura de investigação que congrega uma série de premissas, que traz à tona a subjetividade do pesquisador, a reconhecendo no processo, e por isso tornando toda pesquisa dinâmica, assim como já dá sinais do seu diálogo com outras áreas das humanidades (Antropologia, Sociologia, História), que auxiliam a construção de um conhecimento elaborado nos termos de uma Educação Ambiental crítica e, acima de tudo, propositiva.
 
A busca dos sentidos da ação humana que estão na origem dos processos socioambientais parece sintetizar bem o cerne do fazer interpretativo em educação ambiental. Ao evidenciar os sentidos culturais e políticos em ação nos processos de interação sociedade-natureza, o educador seria um intérprete das percepções – que também são, por sua vez, interpretações sociais e históricas – mobilizadoras dos diversos interesses e intervenções humanas no meio ambiente. (CARVALHO, 2002, p. 31-32).
 
 
Destacar a obra de Isabel Cristina de Moura Carvalho é entrar nessa casa que tem a sensibilidade como encontro, a alteridade como princípio, e a Educação Ambiental como um campo a ser vivenciado de forma integral. Ao final, o conjunto do seu trabalho parece apontar para algo que vai muito além do que, na academia, chamamos de “episteme”, mas sim orienta e cria horizontes para outra forma de relação dos sujeitos no meio, com o meio e percebendo a si mesmo como parte de um ecossistema chamado Terra.
 
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
 
CARVALHO, Isabel C. M. C. A invenção ecológica – narrativas e trajetórias de Educação Ambiental no Brasil. Porto Alegre, Editora da UFRGS, 2002.
 
___________________________ Educação Ambiental – a formação do sujeito ecológico. São Paulo, Cortez, 2008.

Escrito por: Felipe Nobrega

Graduação em História (FURG), mestrado em História (UFRGS) e doutorando em Educação Ambiental (CAPES/FURG). Tema de pesquisa: Fenômenos Ambientais Costeiros e Mudanças Climáticas.

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