Byung-ChulHan e o Excesso de Positividade

Por Alisson Lucena em 15 de agosto de 2020

Além dos clássicos, é importante saber o que os contemporâneos estão falando ou como eles articulam os clássicos. Byung-ChulHan é um filósofo sul-coreano que dedica seu tempo para analisar a sociedade atual, com base na psicanálise e no estruturalismo. Seu livro “Sociedade do Cansaço” sintetiza seu pensamento.

Byung-ChulHan acredita que vivemos uma era de positividade, referente às doenças da mente. O TDAH ou a Síndrome de Burnout são sintomas de uma sociedade positiva, uma sociedade que se autoafirma e se consolida pela massificação das possibilidades da vida, ao contrário da sociedade do século XX, que se construiu a partir das regras e das funções específicas de cada indivíduo. Sendo assim, se constrói no século XXI uma sociedade do desempenho. Cada vez mais, junto com a destruição das estruturas de regulamentação do século passado, a sociedade está construindo um mundo sem regras e sem regulações, onde o alto desempenho é o que todos buscam.

A discussão sobre produtividade na quarentena escancara a questão da positividade e do desempenho. Isoladas, muitas pessoas se cobram ao máximo a produtividade. As próprias pessoas se cobram disso, abolindo as regras e os chefes, tornando-se empreendedores de si mesmos. Como o próprio filósofo afirma:

“No lugar de proibição, mandamento ou lei, entram projeto, iniciativa e motivação. A sociedade disciplinar ainda está dominada pelo não. Sua negatividade gera loucos e delinquentes. A sociedade do desempenho, ao contrário, produz depressivos e fracassados”.
(2017, p.24-25)

 

Temos que admitir que as redes sociais e a crescente desregulamentação da sociedade têm criado novos tipos de indivíduos, que se relacionam com o mundo e uns com os outros de forma totalmente diferente do século passado. O excesso de informação tem gerado indivíduos multitarefas, que, como afirma o filósofo, não é uma evolução, e sim um retrocesso. Não nos dedicamos mais a uma tarefa específica, não contemplamos mais o que estamos fazendo. A multitarefa é necessária para a sobrevivência na selva, onde ao mastigar o animal precisa estar atento ao seu redor. Multitarefa é uma involução que nossa sociedade caminha. Fazemos tanto o tempo todo que poderemos nos chamar de sociedade do cansaço.

Estamos cansados da quarentena porque a nossa sociedade não estava caminhando para a monotarefa e contemplação. O tédio exposto nas redes sociais revela pessoas com saudades das suas angústias, saudades da multitarefa, da autoexploração. Será que ainda é possível reverter esse quadro de multitarefas para um quadro mais contemplativo? Aliás, quem tem tempo para contemplar a vida nessa correria do dia a dia, não é mesmo? Quem sabe uma quarentena e um bom filósofo contemporâneo para nos mostrar um outro caminho que os clássicos não conseguiram nos mostrar pelo simples fato de não viverem no mesmo tempo que nós.

A pergunta que fica é: será que estamos considerando em nossas análises esse novo tipo de sociedade? Essa realidade de excesso de informação e multitarefa é muito nova para nós e merece atenção. O que os educadores ambientais podem fazer para lidar com isso? Uma sociedade que se autoexplora não terá nenhuma piedade com a natureza, já que não tem piedade de si mesmo. Esse é o desafio para nós.
 
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

HAN, Byung-Chul. Sociedade do cansaço. 2ª ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 2017.

Escrito por: Alisson Lucena

Historiador em formação. Fotógrafo amador. Músico fracassado.

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