A quem interessa essa tal banalidade?

Por Ana Lúcia Ruiz Goulart em 10 de agosto de 2020

Ao longo da minha vida acadêmica, sempre tive verdadeira paixão pela Filosofia, talvez pela minha maneira mais introspectiva de ser, de estar sempre pensando e refletindo (até demais) sobre tudo, muito mais do falando ou expondo os pensamentos em palavras. Na verdade,remeto essa paixão também aos tempos do ensino médio, dividida com a História, e essa última mais antiga, desde a antiga 5ª série, quando tive o primeiro contato como aluna da “Tia Direne”. Todavia, nenhuma delas foram áreas escolhidas por mim como primeira graduação (mas obviamente, se fizesse outra, entre elas estariam minhas opções), e sem dúvida, ambas foram e são extremamente importantes na área do Direito e principalmente, no ofício de ser professora, independente da área em que atuemos.

Nesse ínterim, iniciando as aulas remotas da pós-graduação, em um misto de anseios e incertezas frente a nova realidade apresentada pela pandemia e o adaptar-se a novas tecnologias, me peguei pensando em umas das disciplinas que mais me tocou, pelo menos até o momento nesse processo de doutoramento: a disciplina de Ética. A sua importância para o campo da Educação Ambiental é imensurável, se quer possível de ser descrita em toda sua potência. Uma conexão necessária, como nos diz Mauro Grün. Ética está em tudo e em todos/as, ou pelo menos deveria estar, em todas as estruturas e instituições, especialmente na academia.

Digo isso porque, nos últimos dias, revivi minhas memórias sobre umas das aulas em que debatemos a ética contemporânea de Hanna Arendt, sobretudo, em relação a banalidade do mal. E diante de uma notícia chocante em Rio Grande, sobre um homem que foi linchado e morto a tiros, após o atropelamento de uma menina de 7 anos, me fez questionar se essa tal banalidade não está, mais do que nunca, presente nos dias de hoje, com toda sua força.

A barbárie aconteceu nas proximidades do Bairro Getúlio Vargas. No caminhão, estavam dois homens envolvidos no ocorrido: o motorista e o outro, que foi alvejado. A carga que transportavam foi saqueada pela população do local e as diferentes mídias, inclusive, noticiaram o fato com as devidas conotações: “a vítima não conseguiu reagir” (…), “esses indivíduos vieram correndo, e nem sequer deram tempo de resposta”(…), “um crime extremamente violento, de alta gravidade como esse (…)”. 
Para Arendt, a banalidade do mal se refere a incapacidade do indivíduo de pensar no que faz e agir com ética e não exige profundidade e muito menos motivos para a sua realização. Quanto mais superficial é um indivíduo, mais provável é que ele ceda ao mal. Assim sendo, o mal banal atinge e prejudica o/s outro/s das formas mais cruéis e violentas possíveis, ferindo a sua individualidade e subjetividade.
Mesmo com inúmeros avanços, novos conhecimentos e inovações de todos os tipos, não conseguimos levar uma vida mais harmoniosa e humana. O não questionamento, a ausência de significado, a banalidade da vida, do outro, das relações, do mundo, me leva a crer que estamos nos acostumando com essa banalidade toda.
Notícias como essa não nos chocam mais como antes ou rapidamente são esquecidas, seja pelas grandes mídias, ou pelas redes sociais e de comunicação, servindo meramente de fatos ou fofocas a serem compartilhadas, sem se quer algum tipo de atenção ou reflexão mais profunda e tão urgente que o momento necessita. E me questiono mais uma vez a quem interessa essa tal banalidade?
Ofensas de todos os tipos e radicalismos “justificam” as maiores atrocidades já vistas. Vivenciamos social e politicamente o ressurgimento de forças reacionárias, que defendem essa banalidade. Perdemos inúmeros direitos mediante argumentos infundáveis, defendidos por aqueles que se contentam meramente em repetir ideias, como se não vivessem a mesma realidade ou como se nada do que está sendo decidido, fosse atingi-los. Se recusam a pensar, questionar e se quer avaliar as consequências a que estamos coletivamente sujeitos e que ameaçam nossa vida e futuro.

“É necessário que o bem seja radical”, nos dirá Arendt, e isso demanda esforço. E como seres humanos, dotados de consciência e de responsabilidade e, ainda em posse das nossas liberdades e faculdades mentais, precisamos refletir até que ponto não contribuímos ou reverberamos o que aí está, nos pequenos contextos que fazemos parte. Devemos fazer a nossa parte, começando por nós mesmos. Porque quando os bons se calam, os maus triunfam. E já defendia Martin Luther King“O que me preocupa não é o grito dos maus, mas o silêncio dos bons”.

Referências:
BUBER, Martin. Eu e Tu. Tradução do alemão, introdução e notas por Newton Aquiles Von Zuben. 10. ed. São Paulo: Centauro, 2001. 170 p.
 
HANNAH Arendt. Direção de Margarethe von Trotta. Alemanha, Luxemburgo, França, Israel: Heimatfilm, 2013. (113 min). Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=LYGVAFKpvXM.
 
SCHIO, Sônia Maria. Hannah Arendt: o mal banal e o julgar. Veritas, Porto Alegre, v.56, n. 1, p.127-135, 2011

Escrito por: Ana Lúcia Ruiz Goulart

Professora. Bacharel em Direito (FURG). Mestra e Doutoranda em Educação Ambiental (PPGEA/FURG). Tema de Pesquisa: Participação Social; Políticas Públicas e Fundamentos da Educação Ambiental.

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