Uma possibilidade de potencializar os processos de Educação Ambiental

Por Ana Lúcia Ruiz Goulart em 24 de julho de 2020

O texto trata de uma resenha crítica do artigo “O diálogo na educação ambiental: uma síntese a partir de Martin Buber, David Bohm, William Isaacs e Paulo Freire”, que apresenta uma síntese de uma espiral dialógica, como proposta metodológica, composta por diferentes caminhos, baseada na concepção de existência dialógica de Martin Buber e no diálogo enquanto princípio e objetivo da educação ambiental (EA), que podem potencializar e subsidiar o campo. A proposta é caracterizada por quatro momentos: a criticidade e a conscientização, presentes nos círculos de cultura de Freire, e o pensamento coletivo e coerente, dos grupos de diálogo de Bohm e Isaacs.
Inicialmente, Monteiro e Sorrentino apresentam o diálogo como um desafio e uma necessidade do campo da EA e que deve ser estimulado para empoderar os sujeitos que deles participam, trazendo o qualificativo “dialógica”juntamente com o entendimento da incompletude humana e da necessidade de tomada de posição política frente à realidade, colocando a interação/relação como elemento central do processo educador.
A ideia de uma existência dialógica de Buber traz em si a concepção ontológica do diálogo.O diálogo é, portanto, uma exigência existencial, pelo meio do qual os sujeitos ganham significação. Neste sentido, a existência humana é concebida a partir da dimensão da relação, na confirmação e inclusão do outro e no sentimento da consciência de si e também do outro, em um encontro autêntico.
Assim sendo, é a partir do encontro/relação autêntica (relação Eu-Tu), a verdadeira essência da alma humana, que nos tornamos humanos.É na relação que o ser de fato se humaniza em sua totalidade: o Eu só encontra possibilidade de ser Eu, no encontro com o Tu, senão é apenas uma abstração. É o Tu, condição necessária para a sua realização e para a construção de uma sociedade do entendimento.
Entretanto, as relações de poder entre capital e trabalho e a lógica competitiva concebe a humanidade mediante a dominação de um ser sobre o outro, impondo um excessivo distanciamento, caracterizado pelo individualismo, pela insensibilidade e pela incerteza, sendo necessário resgatar a dimensão da existência dialógica, para que os sujeitos não percam sua essência humana.
Desse modo, os autores buscam em Freire, Bohm e Isaacs os caminhos metodológicos para se viver uma existência dialógica. Para Freire é a ausência de opressão de um pelo outro, em que cada indivíduo possa se perceber num constante processo de vir a ser e ir se constituindo enquanto ser humano. Para Bohm e Isaacs é aquela em que se rompe com a lógica mecanicista e fragmentadora do pensamento, adotando a ordem implicada, por meio de grupos de diálogo.
Mesmo em tempos e culturas diferentes, as experiências de ambos os autores, ao longo de suas trajetórias históricas, se constituem pelos eventos vividos que contribuíram para a formulação de suas ideias e sugerem um exercício individual e coletivo que se concretiza por meio da relação entre as pessoas, mediatizada pelo desvelamento da cultura e da compreensão da totalidade em que vivem.Dessa forma, a existência dialógica de Buber, é um processo permanente e continuado, que pode se dar por uma infinidade de caminhos, que permitam a cada pessoa viver em diferentes intensidades uma existência dialógica, criando o movimento de uma espiral.
Os grupos de diálogo de Bohm podem desvelar aspectos culturais, e permitir novas manifestações, até então desconhecidas, por isso que o autor propõe o exercício da suspensão dos pressupostos básicos/suposições prévias que guiam as vidas das pessoas e que são defendidos sob uma carga emocional, quando questionados e são substituídos por uma postura racional quando há diálogo permitindo observar o que está por trás dos pressupostos.
A este entendimento, Isaacs acrescenta ainda duas formas de realizar a suspensão: uma compartilhando o conteúdo do pensamento e, outra, após entender o processo pelo qual o pensamento foi gerado, observá-lo e transformá-lo, rompendo com o mecanicismo da nossa forma de pensar que condiciona e limita nossos pensamentos, o que nos permite questionar as formas de pensar e agir que temos e, assim, ter novos insights, provenientes da ordem implicada.
Bohm sugere alguns elementos que devem ser considerados nos grupos de diálogo, como por exemplo, o número de participantes (20 a 40); a disposição circular que elimina os privilégios; a frequência dos encontros, suficientes para gerar mudanças, além do fato de não haver forças coercitivas e decisão no diálogo.
Monteiro e Sorrentino apontam ainda os estágios do diálogo de Isaacs, desde a deliberação dos participantes em estabelecê-lo, até o diálogo gerador a crise da reentrada, em que há a dificuldade de voltar para as relações habituais e para o mundo. Dessa forma, defendem que o diálogo é o caminho para a mudança do mundo, inclusive para os problemas ambientais, compreendendo o que acontece no todo da sociedade.
Tendo como base o amor, a humildade, a fé, a confiança, a esperança e o pensar crítico, como valores fundamentais do diálogo, Freire elaborou a Teoria da Ação Dialógica, caracterizada pela co-laboração (encontro de homens e mulheres, para juntos, transformar a realidade); a união (que aproximar os indivíduos em um ato de adesão à práxis verdadeira de transformação da realidade injusta); a organização (organização das massas na a busca pela libertação como objetivo comum); e a síntese cultural (em que não há imposição de uma visão de mundo, mas sim o respeito às diferentes formas de ver a realidade e se libertar da alienação, a partir do entendimento histórico de sua condição).
Assim, Freire apresenta os círculos de cultura, constituídos por três fases, como o processo pelo qual os participantes agem dialogicamente, desvelando a realidade que vivem, identificando e entendendo suas contradições fundamentais como construções histórico-culturais que podem ser transformadas, em um exercício de codificação, que envolve a representação de uma situação existencial (a representação do todo), e de descodificação, a análise crítica da situação existencial concreta e do objeto como situação do sujeito (observação da codificação; descrição; “re-admiração”e análise crítica).
Dessa maneira, a partir das ideias de Bohm, Isaacs e Freire, por se entender que a união dos princípios e características presentes nos grupos de diálogo (suspensão dos pressupostos) e nos círculos de cultura (procedimentos de codificação e descodificação) pode potencializar a caminhada pela espiral dialógica, foi proposto um processo metodológico, organizados em duas categorias, cada qual composta por um conjunto de perguntas-indicadoras, que podem subsidiar o desenvolvimento, execução e avaliação de processos de EA.
Esse procedimento metodológico, composto por quatro momentos: codificação; observação da codificação ou escuta genuína; descrição da codificação; “re-admiração” das admirações, observando as sensações corporais e emoções e analisando criticamente todo o processo, é uma possibilidade de potencializar os processos educativos da EA e compõem um ciclo virtuoso que permite a emergência da criticidade e conscientização, de Freire; e do pensamento coletivo e coerente de Bohm e Isaacs, resultando no desenvolvimento de uma existência dialógica e na realização da nossa existência (Buber).
Os autores ainda reforçam que há outros caminhos e outros autores a serem explorados, assim como há a necessidade de desenvolver novas pesquisas que busquem aprofundar os caminhos dialógicos existentes e desvendar novos, aprimorando os processos educadores, com o objetivo de promover a experiência de relações dialógicas, um desafio e uma necessidade para a realização de uma EA libertadora.
Diálogo com a sociedade, procurando entende-la criticamente, historicamente, conjunturalmente, em toda a sua estrutura e contradições, de forma a sentir-se potente para transformá-la com os outros e para o bem de todos. Diálogo voltado à superação das posturas e ações competitivas, intolerantes, homogeneizadoras, machistas, massificantes, imediatistas, predatórias e gananciosas, para o incremento dos conhecimentos e compromissos de toda a humanidade e de cada um com a VIDA, a democracia, a solidariedade, o repúdio a todo e qualquer tipo de totalitarismo, a diversidade, a paz, a justiça, o amor e a emancipação humana (SORRENTINO, 2014, p. 147).
Para finalizar, acrescento que, como estudiosa da ontologia buberiana, posso dizer que o desenvolvimento de uma existência dialógica, de uma ontologia da vida humana, tem lugar na EA, por sua atualidade e aplicabilidade na concretude da vida e pela sua contribuição para formação e constituição do humano, e pode contribuir, e muito, para o entendimento entre os sujeitos, renovando a esperança na construção de um outro mundo, mais democrático, justo e fraterno para todos e todas.
Referências Bibliográficas:
BUBER, Martin. Eu e Tu. Tradução do alemão, introdução e notas por Newton Aquiles Von Zuben. 10. ed. São Paulo: Centauro, 2001.
______________. Do diálogo e do dialógico. São Paulo: Perspectiva, 2007.
MONTEIRO, Rafael de Araujo Arosa; SORRENTINO, Marcos. O diálogo na educação ambiental: uma síntese a partir de Martin Buber, David Bohm, William Isaacs e Paulo Freire. São Paulo: Revista Pesquisa em Educação Ambiental v. 14 n. 1 (2019): 10-31.
 
Acesse o texto original aqui.

Escrito por: Ana Lúcia Ruiz Goulart

Professora. Bacharel em Direito (FURG). Mestra e Doutoranda em Educação Ambiental (PPGEA/FURG). Tema de Pesquisa: Participação Social; Políticas Públicas e Fundamentos da Educação Ambiental.

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