Dossiê Temático n. 3: A potencialidade da arte para a educação ambiental

Por Ribombo em 17 de julho de 2020

A crise socioambiental que temos vivenciado com maior intensidade desde o século XX, pode ser entendida enquanto fruto de uma crise sistêmica, a qual engloba todas as demais crises. Como apontou Capra em sua obra A Teia da Vida (1996), ela é resultado de uma crise de percepção – nosso olhar foi construído a partir de uma perspectiva objetiva, racional, quantitativa e mensurável, sob a orientação cartesiana do mundo moderno. Os demais saberes, advindos dos sentidos e das experiências dos sujeitos em suas mais variadas culturas, foram relegados a um segundo plano, como algo menor, “senso comum”, superstição.
Quando não, nomeados como não saberes,lhes sendo negado legitimidade, sua humanidade e até mesmo sua existência. É preciso desenvolvermos um olhar mais amplo, integral, que leve em conta as muitas diferentes formas de ser e estar no e com o mundo. Se faz urgente assim reaprendermos a olhar a vida, as relações, as conexões e as interações que ocorrem cotidianamente entre todos os seres que compartilham este planeta, e nos constituem enquanto humanos, seres biológicos, sociais, e culturais que somos.
Além disso, a fim de nos comprometermos com as necessárias transformações a serem efetivadas, se faz essencial desenvolvermos um sentimento de pertencimento. Afinal, nos comprometemos com o que amamos, e só amamos o que conhecemos! Com tal propósito a Educação Ambiental se apresenta como uma oportunidade para educar nossos sentidos e pensar outras possibilidades de sociedades, mais humana, sustentável e ecologicamente equilibrada. Enquanto prática educativa, é também política, uma forma de intervenção no mundo e um processo de humanização, que pode ser um movimento de resistência e contraponto aos paradigmas dominantes. Pode se configurar em um processo educativo voltado para a emancipação dos sujeitos e o exercício pleno da cidadania, visando a construção de novos paradigmas, capazes de sulear a consolidação de novas sociedades. É uma proposta crítica-reflexiva, que busca desenvolver uma consciência ambiental, integrada e dialógica, forjada no diálogo entre os diferentes saberes.
Sendo assim, entendo que a Educação Ambiental não pode abrir mão da dimensão estética, visto que esta atua na promoção das sensibilidades, tão cara a constituição do ser humano. A Educação Estética tem como propósito o desenvolvimento integral dos sujeitos, abarcando as suas variadas dimensões, promovendo sua capacidade de percepção emocional da realidade (SILVEIRA, 2015). O fundamento estético está relacionado aos valores éticos, ambientais, culturais, políticos, enfim, a todas as dimensões humanas do viver. Desta forma, a arte, em suas múltiplas manifestações, é uma atividade relevante para pensarmos uma Educação Ambiental crítica e transformadora, que nos reconecte ao ambiente e aos demais seres que o compõem. Ao pensar a educação dos sentidos, Duarte Júnior(2001) nos alerta que esta vai além do treino dos sentidos humanos básicos – tato, olfato, paladar, audição e visão – nossas janelas de acesso ao mundo. Este saber sensível se constitui a partir das experiências cotidianas, sendo o fundador dos demais conhecimentos e saberes.
E que lugar mais potente para esta educação ambiental sensibilizadora, crítica e transformadora germinar do que a escola? Este lugar de encontros, desencontros, afetos, no qual aprendemos e ensinamos em um permanente processo de interconexões e compartilhamentos. Pensar os sujeitos em seu lugar, a partir de suas vivências, é crucial para entendermos estes e suas dinâmicas sociais.
A arte, em suas mais diferentes manifestações, propicia ricas experiências, promotoras de sentidos pelos diferentes sujeitos que a promovem, compartilham e vivenciam. E são muitas as oportunidades de experienciar, conhecer e desenvolver as artes no cotidiano escolar. A fotografia, além de ser uma atividade artística, também é um registro histórico, uma pequena narrativa de um instante, a captura de um momento, que nos permite conhecer um olhar particular ou coletivo. Podemos a partir dela conhecer um pouco de quem registrou o momento, e também de quem construiu o momento que foi registrado. Suas percepções, visões de mundo, conhecer as suas perspectivas!
A fotografia intitulada Ilha dos Marinheiros, nos possibilita enxergar a partir dos olhares e percepções das crianças, atores e autores de suas narrativas, este pequeno contexto de cidade de Rio Grande. As relações que ali se estabelecem com os demais sujeitos, a interdependência destes com a terra e o mar, e seus frutos. A percepção de pertença que tais sujeitos expressam, pois ao serem convidados a representar sua localidade, tais elementos culturais ganham a cena. A atividade na qual culminou o registro também está repleta de aprendizado e atribuição de sentidos – o envolvimento do corpo, da criatividade, do fazer coletivo, das representações mentais e culturais que ganham presença a partir da atividade motora do amassar a massinha, dar forma, do recortar e pintar o papel. A partir de suas experiências e de suas realidades os sujeitos vão lendo e narrando o seu mundo, que também é o nosso, mesmo que não seja o cotidiano imediato, particular, mas ao qual também estamos ligados, familiarizados, somos impactados.
Uma experiência profunda dos sentidos implica entender que o conhecimento é corporizado, ou seja, conhecer é uma atividade corpórea, a qual envolve todos os sentidos. Ao realizar a maquete registrada na fotografia várias saberes foram mobilizados e o corpo todo participou deste processo de aprendizagem.
Podemos conhecer também um pouco da perspectiva da autora da fotografia. Uma educadora ambiental atenta às vozes das crianças da ilha, que apresentam infâncias distintas, como sujeitos históricos e condicionados, mas não determinados, pelo ambiente ao qual pertencem e constituem. Alguém que compreende que o olhar para si e para os seus pares faz parte de um processo educativo ambiental, amoroso, coletivo, capaz de potencializar o sentimento de pertencimento ao lugar, seu ponto de referência, do qual partem e partirão para ler, escrever e reescrever o mundo ao qual pertencem. Estas experiências e vivências todas constituem os sujeitos e suas concepções de mundo, e é no fazer docente que se torna cotidianamente, de forma permanente, uma educadora ambiental, efetivando uma prática educativa sensível, potente para promover as transformações na sociedade.
Além dos sujeitos envolvidos mais diretamente com a construção do artefato, todos aqueles que entrarem em contato com a obra de arte poderiam vivenciar experiências, rememorar, estabelecer relações, atribuir sentidos, participando do processo educativo. Assim, a fotografia, uma das muitas expressões da arte e uma das muitas narrativas da trajetória humana, apresenta-se como potente para a promoção de uma Educação Ambiental radical e transformadora. Que a arte, em suas mais variadas formas, continue sendo entendida como mais uma narrativa, uma expressão de sentidos, que possa continuar contribuindo para educar os nossos sentidos e nos ajudar a nos tornarmos em humanos cada vez mais humanos!
Título: Ilha dos Marinheiros / Modalidade: fotografia
Linha de pesquisa: Educação Ambiental Formal
Artista: Gabrielle Lopes das Neves
Esta fotografia foi realizada a partir de uma prática pedagógica em uma escola pública do município de Rio Grande/RS e contou com a participação de crianças da Educação Infantil e do Ensino Fundamental de Nove Anos. A prática pedagógica teve como principal objetivo pensar a Educação Ambiental da Ilha dos Marinheiros-Rio Grande, que se caracteriza por ser uma comunidade composta majoritariamente por pescadores e agricultores. Neste sentido, podemos observar na imagem a representação do mapa da Ilha dos Marinheiros através dos olhares das crianças, além do mapa outros elementos são característicos do lugar como os barcos, a produção de hortaliças, o cesto com peixes que foram produzidos pelas crianças a partir de massas de modelar. Logo, podemos pensar em propostas de Educação Ambiental realizadas em espaços formais de ensino que se fundamentam através dos conhecimentos dos sujeitos sobre o lugar e suas vivências espaciais.
Local: Ilha dos Marinheiros, Rio Grande, E.M.E. F. Apolinário Porto Alegre
———————————————————————————————————————–
Sabrina Meirelles Macedo
Doutoranda em Educação Ambiental FURG.

Escrito por: Ribombo

Ribombo é o nome dado a um novo grupo de pesquisa e estudos criado em 2018 e resulta do envolvimento com investigações, atividades de ensino, extensão e de gestão em políticas públicas em educação ambiental ao longo das últimas duas décadas. Como perspectiva, busca estudar os fundamentos da EA, bem como a educação ambiental articulada ao tema das mudanças ambientais globais, fenômeno que traspassa a experiência civilizatória contemporânea, e a questão dos objetivos do desenvolvimento sustentável. Utiliza o blog como uma das suas estratégias de comunicação e intercâmbio, buscando publicizar a produção acadêmica, disseminar informações e socializar fontes de pesquisa e a produção de material audiovisual.

Redes sociais


Textos de Apoio


O Ribombo organiza encontros quinzenais para discutir seus temas de pesquisa e elaborar novos projetos no campo da EA. Clique no botão para ir à página dos textos de apoio de cada reunião

Parceiros


logo furg
logo ppgea

Colunistas