Dossiê Temático n. 3: A experiência da I MOLA

Por Rachel Hidalgo em 9 de julho de 2020

A Mostra Latino Americana de Arte e Educação Ambiental – MOLA aconteceu, pela primeira vez, em novembro de 2019, nas dependências da Universidade Federal do Rio Grande – FURG. A oportunidade surgiu entre as reuniões de um outro evento, o Encontro e Diálogos com a Educação Ambiental – XI EDEA, organizado pelos/as discentes do Programa de Pós-Graduação em Educação Ambiental – PPGEA/FURG, em que todo/as discutíamos as várias maneiras de falar sobre a EA. Em dado momento, chegamos ao ponto: e por quê não falar, também, por meio de uma mostra de artes?
Anualmente, o EDEA ocorre como um evento que recebe pesquisas de todo o país relacionadas ao tema da Educação Ambiental: promove oficinas, mesas de debates, palestras com pesquisadores/as e outros/as que estejam trabalhando em novas perspectivas para a área. Em anos anteriores, já costumava convidar artistas para apresentar peças de teatro, música, lançar livros, entre outras atividades.
Porém, ainda não tinha aberto um espaço para as manifestações artísticas da maneira como fez nessa XI edição – e quando falo em espaço, quero dizer: divisão de tempo do evento, tempo de apresentações, palco, espaço para uma galeria, coquetel, auxílio financeiro, entre outros apoios. Já a elaboração da mostra que, agora, comporia o EDEA, ficou sob a responsabilidade de um núcleo menor que, com o passar dos dias, foi aumentando e muito! O Grupo de Pesquisa Ribombo foi o primeiro a emprestar mãos para toda obra; contamos também com o Diretório de Arte e Cultura – DAC/FURG, que nos permitiu imprimir todas as obras que seriam expostas; a Biblioteca da Fotografia Municipal Ricardo Giovaninni não somente criou uma ponte entre o evento e a Secretaria de Cultura da Cidade do Rio Grande – SECULT (que nos oportunizou o uso de cavaletes para a exposição), como também marcou presença por meio de uma palestrante egressa da nossa universidade, a Prof.a Dr.a Gianne Atallah, que conversou sobre a importância do patrimônio fotográfico da cidade.
Contamos também com outros/as artistas convidados/as, como o Prof. Dr. Régis Garcia, com uma oficina sobre as artes das capas de discos que ele mesmo criou, e a apresentação de sua banda The Experience Nebula Room; 2) a ilustradora Tâmara Cerpa, que produziu uma série de telas especialmente para a mostra; 3) outros ilustradores como Lucas Oliveira e Cristher que nos ajudaram a espalhar o evento pelo ciberespaço; 3) o Matheus Braga Dias que operou as redes sociais como nunca antes na história desse país FURG; 4) o Rafael Simione que, um dia na vida, já tinha me dito: “eu não gosto de arte ”. Bom, foi ele o responsável  pela maior parte da decoração da mostra – e que decoração linda!; 5) o Prof. Felipe Nóbrega que trouxe a escola pública para dentro do campus universitário ; 6) contamos com uma curadoria especialíssima e super competente; 7) o artista chileno, Carlos Calvimontes Rojas, que gentilmente cedeu um de seus trabalhos para a composição da nossa identidade visual; 8) teve todo acompanhamento atento e carinhoso do Prof. Dr. José Vicente de Freitas; 10); 11); …enfim, não daria para nominar todo mundo. Mas, para falar a verdade, a mostra acabou por reunir muita gente bacana e, realmente, interessada no assunto!
Nesse movimento todo, tivemos a participação de quase 100 artistas em nossa primeira edição, dos quais selecionamos, por meio da curadoria, apenas obras, entre fotografia, vídeo, ilustração e grafite. A ideia central era expressar a EA, entre suas diversas correntes, por entre tais formas de linguagens. E o grande momento da noite foi assistir cada um/a desses/as artistas – alguns/mas, talvez, pela primeira vez – entre jovens, professores/as, profissionais e não-profissionais das artes, subirem ao palco em meio a um grande público no Auditório Professor João Rocha, e falar sobre a sua obra. Ao final, Esteve Maris e Léo Arpino encerraram com uma performance de tirar o fôlego que ainda restava em quem acompanhou aquele dia.
Claro, teve choro, discursos aclamados, distribuição de fanzines sobre revolução, piadas, risos, música, performance e tudo o mais daquilo que se espera quando se está entre artistas. E todos/as que estavam lá, participantes e público, sem qualquer exceção, era um artista, pois estavam dispostos/as a olhar para a Educação Ambiental de uma outra forma, ou seja, criar junto!
Eu poderia escrever muito mais sobre esse dia – e ainda vou – mas deixei um dos tópicos importantes por último: a colaboração da Prof.a Dr.a Luciana Netto Dolci na I MOLA. Ela que tem inserido a Educação Estético-Ambiental no PPGEA desde 2014 após o lançamento de sua tese (DOLCI, 2014) e vem discutindo as possibilidades de mexer um pouquinho mais nesse caleidoscópio que é a EA por meio da estética. No evento, ela foi a primeira a subir ao palco como palestrante e tomamos essa decisão de maneira estratégica. Ela era a pessoa certa para avisar ao público:
“Aqui, estamos desenvolvendo trabalhos acerca da Educação
Ambiental em profundo diálogo com as Artes (…) Um evento como
esse mostra de que lugar estamos falando, o que pensamos, o que
acreditamos e o que queremos em termos de educação ”.
Ouvir as suas palavras, que não são somente resultados de anos de estudos e pesquisas publicadas, mas de seus sentimentos, de sua crença, nos deixa confiantes para continuar buscando diálogos compartilhados entre as áreas do conhecimento. E ela nos deu uma breve entrevista, em que comenta um pouco sobre essa ideia:
1. Na sua experiência, acha que o campo da Educação Ambiental tem recebido bem o campo das Artes com relação à pesquisa científica?
LND: Percebo que a Educação Ambiental e as Artes tem sido um campo fértil para pesquisa científica e está cada vez mais sendo consolidado. Eu desenvolvi a minha pesquisa de doutorado no diálogo entre os campos da Educação Ambiental e da Educação Estética, mais especificamente o teatro. E compreendo que a Educação Estética, ou seja, a educação dos sentimentos, a educação sensível é o encontro necessário para desenvolver a Educação Ambiental e vice-versa. E percebo que está avançando não só na pesquisa científica, por meio dos trabalhos científicos, como também nos projetos de ensino e extensão que são desenvolvidos nas diversas comunidades.
2. Nós acreditamos que as artes ampliam as perspectivas da Educação Ambiental. Pode citar alguns caminhos teóricos dessa comunicação entre campos?
LND: Eu concordo, nós acreditamos que as Artes, e aqui me refiro a Educação Estética, podem ampliar as perspectivas da Educação Ambiental porque ao aprofundar os meus estudos e ao desenvolver as minhas pesquisas percebo que não há separação entre a Educação Ambiental e a Educação Estética. A questão central da Educação Estética é a ampliação dos sentidos humanos e é fundamental para o desenvolvimento e para a consolidação da Educação Ambiental. Eu compreendo que a Educação Estética é condição para a Educação Ambiental e a Educação Ambiental influencia a Educação Estética. E por isso eu acredito na Educação Estético-Ambiental, porque por meio de uma educação sensível podemos ter atitudes mais afetivas e solidárias com os outros seres, enfim com o ambiente. Acredito no encontro destas duas áreas do conhecimento e eu não consigo separá-las, no momento desenvolvo projetos de ensino, pesquisa e extensão promovendo a Educação Estético-Ambiental, porque a Educação Estético-Ambiental é mais que uma questão de pesquisa científica e uma questão de atitude, é um modo de viver.
3. Entre as manifestações artísticas, qual linguagem considera melhor absorvida pela EA e por quê?
LND: Acredito que todas as manifestações artísticas têm avançado no campo da Educação Ambiental. É natural ocorrer o avanço de uma manifestação artística mais do que outra, porém o que eu penso ser valioso é continuar avançando para aproximar a educação sensível da educação ambiental, o importante é continuarmos com as pesquisas, com as ações e com o movimento que contagie as pessoas que não existe a separação entre o sensível e o ambiente. Precisamos pensar e problematizar como o ser humano se relaciona com o mundo em que vive, com a natureza, com a vida e com os outros seres. E trabalhar com o estético, o ambiental, a educação, as linguagens, o desenho, a imagem, o brincar, o sentir prazer, o gostar e o não gostar é uma maneira de mantermos a educação estético-ambiental presente em nossas vidas nos diversos lugares em que estamos com o intuito de propiciar ambientes em que sejam favoráveis para o desenvolvimento da sensibilidade, da imaginação, da intuição, da criação.
Quando a professora Dolci comenta sobre Educação Estética (ESTEVEZ, 2003), ela aponta para a ampliação dos sentidos humanos, o qual estimula a conjunção de áreas de estudos com outras percepções para alcançar novos resultados dentro da academia, por vezes, ainda um tanto dura quando se trata de outros saberes, como os populares, religiosos, artísticos, entre outros, mesmo nas Ciências Humanas. Isso corresponde, em alguma medida, talvez, à uma crise de paradigma em que muitos/as autores/as passaram a considerar os conceitos considerados como “seguros” e/ou “corretos” demasiadamente relativizados pela inserção de outras janelas de discussão (CAPRA, 2006).
Entretanto, hoje, essa relação tem sido bastante alargada, dado o alto número de produção científica que se utiliza de outras formas de diálogo, possibilitando, por exemplo, uma Educação Estético-Ambiental (DOLCI, 2014). Para a autora, tal conceito trata-se de um “(…) processo de desenvolvimento e emancipação das dimensões humanas por meio de experiências significadas em um contexto histórico e social, que propicia a práxis nas relações sociais, políticas e culturais” (DOLCI; MOLON, 2018, p. 801; 2015, p. 75).
Portanto, o que você encontra nesse material, além desse breve relato sobre a I MOLA, e de uma rápida conversa com a professora Dolci, é também o olhar de algumas pessoas que estiveram presentes na mostra e expressaram suas sensibilidades sobre algumas das obras . Assim, seguir as páginas do dossiê é um convite que faço à você que está disposto/a a conhecer tais manifestações artísticas também por meio de outros olhares, criando, dessa forma, uma teia complexa de percepções.
Referências:
CAPRA, Fritjof. O ponto de mutação. Rio de Janeiro: Cultrix, 2006.
DOLCI, Luciana Netto. Educação Estético-Ambiental: potencialidades do teatro na prática docente. (Tese). Doutorado em Educação Ambiental, Universidade Federal do Rio Grande – FURG, Programa de Pós-Graduação em Educação Ambiental – PPGEA, Rio Grande/RS, 2014. Disponível em:
https://argo.furg.br/?BDTD10516 Acesso em 06 de maio de 2020.
DOLCI, Luciana Netto; MOLON, Susana Inês. Educação Estético-Ambiental na produção científica de dissertações e teses no Brasil In: Ambiente e Educação – Revista de Educação Ambiental, v.20, n.2, 2015. Disponível em: https://periodicos.furg.br/ambeduc/article/view/5823/3765 Acesso em 06 de maio de 2020.
ESTÉVEZ, Pablo René. A educação estética: experiências da escola cubana. São Leopoldo: Nova Harmonia, 2003.
Acesse o dossiê completo aqui.

Escrito por: Rachel Hidalgo

Graduação em Comunicação Social (UNISANTOS), licencianda em Artes Visuais (UNIP), mestrado em Educação Ambiental (CAPES/FURG) e doutoranda no mesmo programa (CNPq/FURG). Tema de pesquisa: Educomunicação Socioambiental por meio do suporte audiovisual.

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