Dossiê Temático n. 3: Considerações sobre a fotografia e sua apropriação

Por Guilherme Almeida em 15 de julho de 2020

A potência criativa e a expressão artística são alguns dos elementos mais fundamentais que edificam a nossa humanidade. Foram muitas as formas criadas, desde a pintura rupestre no período paleolítico até hoje, com formas e mecanismos, mais ou menos elaborados da modernidade e pós-modernidade. Um fato é comum entre essas formas: todas possuem um elevadíssimo poder na comunicação de ideias, sentimentos e histórias. Em sua grande maioria, a criação e a expressão artística nascem com a finalidade de representar a nossa realidade imediata, ou os sentimentos que por ela são gestados – nesse sentido, podemos falar de pinturas, esculturas, artes cênicas, música, ou a fotografia – mas para a proposta desse dossiê, gostaria de focar na última citada, a fotografia.
A experiência fotográfica acompanha há muito tempo a história da humanidade, retomando 350 anos antes do tempo comum, na Grécia, inicialmente desvendando alguns princípios físico-químicos, como o fenômeno da produção de imagens pela passagem de luz através de um pequeno orifício. Muitas descobertas foram feitas até que a primeira impressão sobre papel pudesse ser realizada no século XIX. Desde então, a tecnologia foi aperfeiçoada – da câmera escura à câmera digital e smartphones – assim como os objetivos por trás de cada fotografia realizada – fomos das fotografias familiares e membros da elite, para as redes sociais.
São muitas as potencialidades por trás de uma fotografia: memorial; documental; artística; sentimental; monumental. Essas potencialidades acompanham as diferenças de cada sujeito que delas se apropriam, ampliando o seu universo de significação e utilidade. A limitação das fotografias também está associada às pessoas, àquela que tira a foto – recortando um pedaço da realidade imediata – e nesse ato expressa sua intencionalidade nas escolhas dos elementos, e também, àquela que observa e traz em seu olhar toda sua subjetividade. Uma fotografia por si só pouquíssimo tem a dizer, é preciso que todos esses elementos acima se cruzem para explorar ao máximo suas potencialidades. Dissociado de contexto e sentido, tanto de quem tira a foto, quanto de quem observa, uma fotografia pouco terá a dizer.
São os artistas, trabalhadores, pessoas leigas e cientistas da área da História que significarão as fotografias, preenchendo-as de questionamentos, estabelecendo relações com outras variáveis, eliminando o vácuo deixado pelo recorte da própria fotografia. No caso dos historiadores – e aqui reafirmo a posição científica dessa categoria – a entenderão como uma fonte, travando um cruzamento com outros documentos, guiados por uma perspectiva teórica e um rígido processo metodológico, e através desse processo construirão o conhecimento histórico.
Nesse caso, a fotografia enquanto fonte não falará por si, é preciso que o historiador categorize e a problematize como um dos seus objetos, levando em consideração que a própria fotografia é carregada de historicidade e da subjetividade do autor. Da categorização e problematização da fotografia (fonte e objeto) podemos propor alguns questionamentos, como: qual a datação? qual o lugar? quem foi o fotógrafo e quais suas aspirações? quais os elementos que compõem a fotografia? qual o objetivo da fotografia? como podemos contextualizá-la a outras questões? e qual o nosso objetivo com ela? Posta as questões, gostaria de propor uma breve reflexão sobre esta fotografia chamada “Márcia” do/a autor/a: Liza Bilhalva.
Quando me deparei com esta imagem fui remetido quase que instantaneamente a algumas questões. A primeira delas foi: quem é esta mulher? Analisando com mais profundidade podemos perceber que é uma mulher adulta, sua vestimenta, os petrechos de pesca, o barco e o lago (ou quem sabe um rio) indicam quase que naturalmente que ela é uma trabalhadora ligada à área da pesca. Estes elementos guiaram-me a segunda questão: qual a relação das mulheres com a pesca? Levando em consideração que nesta profissão (geralmente dominada por homens) dificilmente vemos as mulheres como protagonistas desse ofício.
Dentro desta última questão podemos levantar outras problemáticas, que orbitam a relação das mulheres com a pesca através do recorte de gênero, por exemplo: quais as dificuldades enfrentadas por elas ao ocuparem um espaço predominantemente masculino? Qual a perspectiva dessas mulheres sobre o próprio ofício? Quais as práticas desenvolvidas por elas? Essas práticas divergem das práticas masculinas? Os seus direitos são garantidos igualmente aos direitos masculinos?
Essas últimas problemáticas vão de encontro com as questões de gênero, que despontam como tendências dentro das produções acadêmicas desde os anos 70, e ganham força nos dias atuais. Ou seja, meu próprio olhar e problematização sofre influência das questões que acompanham o nosso tempo, para além dessas, outras questões poderiam ser postas, como questões socioeconômicas. Para além das problematizações, não podemos esquecer-nos do cuidado mais técnico na categorização da fotografia, como a data que foi tirada, o lugar, o autor e o objetivo dele.
Não há fronteiras na capacidade de comunicação de uma ideia, sentimento e história que há por trás de uma fotografia, a não ser as nossas próprias limitações. Tudo está intimamente relacionado com a nossa capacidade interpretativa e crítica, tanto para o autor da foto, quanto para aquele sujeito que se propõe a tomar para si a fotografia como um objeto que possui um universo de possibilidades.
Título: Marcia / Modalidade: Fotografia
Linha de pesquisa: Raízes dos Fundamentos da Educação Ambiental
Artista: Liza Bilhalva
A imagem nos revela a Márcia, pescadora artesanal profissional da pesca embarcada na Lagoa Mirim, mais precisamente na localidade chamada Pontal de Canoa, em seu barco com os petrechos necessários para a realização da captura da Viola, peixe de água doce que habita o fundo da lagoa. Márcia é uma das pescadoras embarcadas que tenho encontrado ao longo da pesquisa etnográfica que realizo com essas trabalhadoras no estuário da Lagoa dos Patos e Lagoa Mirim, cujo objetivo, orientado pelas epistemologias ecológicas (Carvalho & Steil:2014) e desenvolvida no diálogo entre as áreas da Educação Ambiental e Antropologia, é compreender de que forma os saberes ligados às suas práticas de trabalho, territorialidades e, de forma mais ampla, o modo de vida, se formam, atualizam e são transmitidos em processos educativos, percebendo assim as inúmeras estratégias de enfrentamento às crises socioambientais experienciadas ao longo de suas trajetórias.
Acesse o dossiê completo aqui

Escrito por: Guilherme Almeida

Estudante de História - Licenciatura pela Universidade Federal do Rio Grande, no atual momento estou cursando o último ano da Graduação. Minha linha de pesquisa se concentra na área da Educação.

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