Resenha de Art and climate (change) perception: Outlineof a phenomelogy of climate

Por Felipe Nobrega em 30 de julho de 2020

Dificilmente você deixou de ouvir falar sobre Mudanças Climáticas nas últimas décadas, é isso que Julien Knebusch diz pra nós logo no início de seu artigo “Art and climate (change) perception: outline of a phenomelogy of climate”, publicado em 2008 junto ao livro “Sustainability: a new frontier for the arts and cultures” (KAGAN & KIRCHBERG, 2008). E se há doze anos já era possível perceber que o tema das mudanças ambientais globais circulava por vários âmbitos da sociedade, essa certeza se refaz com ainda mais força em 2020. 
 
Se o quarto relatório do Intergovernmental Painel on Climate Change (IPCC) de 2007 já apontava a intervenção humana como fator para acelerações nos processos de mudanças climáticas, igualmente o cenário só se consolidou quanto aos impactos que a Terra está sofrendo devido a nossa forma de vida, especialmente nossas formas de produção alicerçadas no esgotamento de recursos naturais. Ou seja, retomar o texto de Knebusch é, de novo, lidar com as dúvidas e horizontes de 2008, mas, sobretudo, encarar que essa é uma agenda irreversível. Por uma questão de sobrevivência no planeta de todo e qualquer organismo vivo.
 
E o primeiro esforço de compreensão que ele propõe é encarar o Clima como um elemento da Cultura, enquanto um repertório de sentidos que a Fenomenologia irá se interessar para, assim, provocar ações de sensibilização junto aos sujeitos e suas relações com o ambiente. Da mesma forma, pensa o Clima nos seguintes termos: “Our belief is that the phenomenn needs to be analysed in a transdisciplinary approach in order to get a better and deeper understanding of its complexityand reality” (KNEBUSCH, 2008, p. 3).
 
Tal afirmação é feita ao levar em consideração o afastamento das Humanidades do debate, que ficou relegado em áreas técnicas e Ciências da Natureza, campos com suas especificidades e horizontes que, hoje podemos dizer isso, não representam a totalidade do debate sobre Mudanças Climáticas. Somado a isso, justamente pelo nosso modelo de vida, a autora reconhece que as sociedades Ocidentais parecem ter rompido com o próprio conceito de Clima, na medida em que também, através de tecnologias, passou a recriar de forma artificial climatizações.
 
E será a partir da Arte que Julien Knebusch iniciará sua discussão de mitigação, e aproximação do conceito de Clima no campo das Humanidades, apresentando o seguinte horizonte:
 
… a work of art may help us to experience and reveal our inner participation with climate, the rupture of  its balance and its meaning for our inner world, in the same way as a landscape artists whore framed the relationship of human to their envinroment (KNEBUSCH, 2008, p. 4).
 
 
 
Ao mostrar uma relação na forma como o conceito de Paisagem foi incorporado, (sobretudo desde o século XIX), e traduzido enquanto uma realidade subjetiva nas sociedades, o autor argumenta que é possível nessa mesma trilha epistemológica reconhecer o Clima enquanto um conceito apreensível por todas e todos, transformando-se em algo objetivo dentro dos cotidianos – portanto, problematizado com maior clareza. E sobre isso complementa: “Climate exist as such only for a corporal and sensitive being and can be regarded, phenomenologically speaking, as a landscape…” (KNEBUSCH, 2008, p. 4/5).
 
E ele busca que o leitor entenda isso a partir da provocação: “O que sentimos e chamamos de Clima?”. Essa é uma pergunta direta que Knebusch nos proporciona para pensar sobre o nosso próprio entendimento, mas principalmente aquelas grandes escalas de apropriações sociais partilhadas, como é o caso das estações do ano. A sociedade Ocidental moderna reconhece culturalmente as diferentes estações, algumas com elementos próprios, como períodos de chuva e seca, outras com marcações mais bem definidas entre verão, outono, inverno e primavera.
 
Dito isso, é fácil para nós, por exemplo, assimilar um conjunto de práticas e experiências ligadas às estações, como a praia estar ligada ao verão, enquanto os cenários de folhas ao chão se concentram no outono, o aumento das chuvas na primavera, seguido do aumento da temperatura… E dentro dessas grandes escalas, igualmente iriam surgir rotinas e representações cotidianas que identificariam o ato ao Clima em questão, algo que o autor sintetiza quando diz: “Seasons referto the humans cale of climate” (KNEBUSCH, 2008, p. 8).
 
E aqui cabe abrir um parêntese sobre uma distinção que o próprio Julien Knebusch sugere entre “Climate” e “Weather”. A primeira expressão se conecta a uma temporalidade maior, ligada ao campo sensível, de uma percepção que se incorpora na Cultura; enquanto a segunda expressão está vinculada a um estado temporário específico, pontual, como a chuva, ou o vento em um determinado tempo e espaço.
 
Para aproximar ao seu próprio objeto de discussão, Knebasch apresenta exemplos como as telas de Claude Monet, uma delas é Le Bassinaux Nymphéas, de 1919:
Pintura: Claude Monet – Le Bassinaux Nymphéas, 1919.
Disponível em: https://elpais.com/cultura/2008/06/24/actualidad/1214258407_850215.html
 
O que ele argumenta sobre essa tela é a ideia de uma atmosfera, de um sentido que é aguçado não por um detalhe específico, mas por um conjunto de manifestações que recriam o Clima como subjetividade. Para ela, é a dispersão do olhar na tela que provoca isso, surgindo essa ambientação produzida por um artista quase cego, mas capaz de emular essa atmosfera climática de brumas que surgem como memórias, permanências e climas que atingem sensorialmente quem observa a obra. Ainda, dentro de uma temporalidade longa, que se move vagarosamente, o centro da tela inda oferece um percurso, um movimento que se faz na sinuosidade preenchida pelos reflexos essa água espessa, caudalosa e que sugere uma relação com a vida.
 
Essa é só uma das representações que aqui se poderia sugerir, mas fato é que, tal leitura serve como um esboço, um exemplo do que a autora procurar relacionar entre Clima e Cultura. Tal relação será, não só na leitura dela, mas dos dados dos últimos anos sobre avanço das Mudanças Climáticas, completamente abalada quando entram em cena situações como a falta de demarcadores culturais entre as estações, quando em pleno inverno as temperaturas médias permanecem em valores acima dos registrados nos últimos dois séculos.
 
É nesse momento que entra em cena a Arte, e uma noção fenomenológica do Clima, como elemento capaz de expor sensivelmente aos sujeitos essa realidade ligada às subjetividades que estão, assim como registros objetivos da climatologia, se transformando e impactando a vida na Terra. Ao pensar em pequena escala, em aproximar os impactos climáticos nas vidas rotineiras, o autor reconhece a importância de uma valorização perceptiva local, é essa que trará as problematizações de como cada sociedade se relaciona com o seu Clima, e como ele pode ser um elemento norteador para construção de um horizonte
 
O acompanhamento desse entendimento deverá ser o da integração dos espaços educativos formais, através de seus currículos, da mesma forma que a integração de espaços não-formais de ensino-aprendizagem, mas que podem contribuir para uma criticidade contemporânea ainda maior. É nesse momento que ele
 
Abaixo ficam alguns exemplos dos trabalhos citados. E o primeiro deles é o Projeto Cape Farewell, de David Buckland:
Site: https://capefarewell.com/
 
Em seguida os projetos francês Clímax:
Site: https://www.mvrdv.nl/projects/186/climax
 
E, por fim, os projetos de Andrea Polli:
Site: https://sites.google.com/andreapolli.com/main/andrea-polli?authuser=0
 
Vale a pena encerrar essa resenha, que buscou mostrar um pouco da compreensão de Clima que pode ser desenvolvida quando outras possibilidades de interpretação se abrem sobre um tema que ainda, mesmo reconhecido, não se consolidou no cotidiano experiencial dos sujeitos, com a indicação de uma tese defendida junto ao Programa de Pós-Graduação em Educação Ambiental no ano de 2020 “Fábulas e ficções de natureza: arte e educação ambiental a partir da 9ª Bienal do Mercosul/Porto Alegre e da 32ª Bienal de São Paulo”, da pesquisadora Caroline Lea Bonilha. Discutindo, justamente, a intersecção entre Arte e Educação Ambiental, a autora traz uma série de referências ao campo que poderão, em breve, ser acessadas para a consolidação de uma perspectiva que, já em 2008, Julien Kneubusch apontava: o entendimento do Clima enquanto um elemento da Cultura, e a possibilidade de uma leitura fenomenológica oriunda do campo da Arte para um diálogo crítico e sensível com as comunidades humanas.
 
REFERÊNCIAS
 
KNEBUSCH, J. Art and climate (change) perception: Outline of a phenomelogy of climate. In: KAGAN, S. & KIRCHBERG, V. (Eds.). Sustainability: a new frontier for the arts and cultures. Frankfurt. Verlag fur Akademische Schriften, 2008. p. 242-261.
 
Intergovernmental Panel on Climate ChangeIPCC, The Scientific Basis-Contribution of Working Group1tothe IPCC Fourth Assessment Report. (Cambridge Univ. Press. 2001). Intergovernmental Panel on Climate Change IPCC, Climate Change 2007: The Physical Science Basis, Summary for Policy Makers. IPCC Geneva, 2007. 
 
Acesse o texto original aqui.
 

Escrito por: Felipe Nobrega

Graduação em História (FURG), mestrado em História (UFRGS) e doutorando em Educação Ambiental (CAPES/FURG). Tema de pesquisa: Fenômenos Ambientais Costeiros e Mudanças Climáticas.

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