Ondas que te quero mar: Educação Ambiental para comunidades costeiras

Por Ribombo em 19 de junho de 2020

Os oceanos ocupam mais de 70% da superfície terrestre. Ainda assim, muitos lugares não possuem acesso à costa e um grande número de pessoas nunca chega a conhecer o mar. Para nós, que vivemos no litoral e temos acesso direto à praia isso soa um tanto estranho, né? Mas, mais estranho ainda é morarmos na zona costeira e não termos consciência da influência real do mar, que permeia nossas vidas através do ar, lazer e economia. A urbanização, industrialização e alienação afastaram muito as pessoas do universo natural, ecossistemas e biodiversidade, esse distanciamento entre comunidade e mar é um fator importante e sua percepção foi o ponto de partida para o desenvolvimento do projeto do qual vamos falar agora, que propõe o resgate da mentalidade marítima nas crianças e professores, conscientizando sobre influência do mar e seu papel na vida da comunidade costeira.
O NEMA – Núcleo de Educação e Monitoramento Ambiental – é uma instituição voltada à trabalhos de educação e monitoramento ambiental no Balneário Cassino e foi o responsável pelo Projeto Mentalidade Marítima, pensado para as escolas da zona costeira gaúcha e iniciado em 1987. Caminhando por várias áreas do conhecimento, o Mentalidade Marítima busca disseminar a Educação Ambiental através de práticas pedagógicas diversas respeitando a realidade socioeconômica dos agentes envolvidos. Tudo começou com a visita da professora Eli Reis ao NEMA com intuito de esclarecer questionamentos feitos pelos seus alunos a respeito do ambiente local que ela não soube responder. A partir daí foi realizada uma pesquisa de métodos, conteúdos e atividades de educação ambiental para que se construísse uma proposta condizente com o público e contexto inserido.
Uma experiência piloto foi realizada de 1987 a 1989 em 4 escolas do Balneário Cassino. As turmas iam até a sede do NEMA onde eram levadas à saídas de campo, recebiam palestras e realizavam oficinas. Após o êxito do experimento, foi planejado um programa de EA em 15 aulas envolvendo ciências e artes que foi desenvolvido com diferentes grupos de educadores durante dois anos. Em 1992, o projeto recebeu apoio financeiro do FNDE – Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação –  e a partir de então, ao invés de a escola ir até o NEMA, ele passou a ir até a escola. Em 1993 foi firmado um convênio com a SMEC – Secretaria Municipal de Educação e Cultura, esse envolvimento foi importante no sentido de reconhecer os trabalhos que estavam sendo feitos abordando a questão ambiental e comprometer-se com esta enquanto política pública. O apoio da SMEC e FNDE possibilitou que, entre 1994 e 1995, se formasse uma equipe com profissionais de diferentes áreas que trabalharam na construção de um referencial teórico mais amplo que contemplasse a prática que já estava sendo feita. O projeto pode ser estendido para outras escolas do município e o programa de 15 aulas foi realizado em conjunto com as disciplinas de ciências, arte e educação psicofísica. No entanto houve certa dificuldade em conciliar a metodologia com o conteúdo programático da SMEC. Isso mudou com a nova LDB (Lei de Diretrizes e Bases para a Educação nº 9394) que incluiu temas transversais incluindo meio ambiente, e aliada a regulamentação da Política Nacional de Educação, culminou na formação de um grupo de trabalho que se propôs a construir um Projeto de Educação Ambiental da Rede Municipal de Ensino. A partir de 1996, o projeto Mentalidade Marítima ultrapassou os limites de Rio Grande, chegando às escolas de São José do Norte.
O projeto aconteceu a partir de etapas chamadas de “ondas”, contemplando diversos pontos importantes. são elas: Onda 1: Ser-Natureza; Onda 2: O Lugar onde Vivemos; Onde 3: Biodiversidade; Onda 4: Biosfera e ecologia; Onda 5: Planejamento Ambiental. Cada onda é constituída por objetivos, conteúdos e atividades, adequadas à abordagem interdisciplinar. As aulas tornam-se muito atrativas devido às atividades desenvolvidas que vão além do tradicional já bastante conhecido pelos alunos. As práticas pedagógicas com perspectiva ambiental abordadas são muitas e vão desde interpretação de textos, músicas e poesia à Ioga, Tai Chi Chuan e oficinas de reciclagem de papel,  objetivando uma experiência realmente holística, que desenvolva o imaginário, sensações e formas de expressão, dinamizando, assim, a interação entre teoria e prática, ou seja, entre conhecimento científico e a vivência na comunidade.
Quer saber e entender com mais detalhes o funcionamento do projeto? O que é e como fazer Educação Ambiental, como aconteceu sua inserção nas áreas, entre outros aspectos? Lê o “Ondas que te quero mar”, livro super interativo organizado pelo NEMA, onde está sistematizada toda a experiência do projeto, funcionando também como um guia metodológico. Aprenda, se inspire e leve essa e outras ideias para a sua escola, bairro e comunidade! Já foi-se o tempo em que dizíamos “torna-se cada vez mais importante” falar sobre EA e fazer EA, hoje – e já faz tempo – ela é uma necessidade real. A Educação Ambiental deveria ser mais do que projetos, e sim parte dos currículos escolares. É urgente que as discussões sobre degradação ambiental, fenômenos da natureza, mudanças climáticas sejam feitas de forma contínua, ampla e crítica, estabelecendo desde cedo a consciência ambiental que tanto está em falta. Mas para além de mergulhar nesses temas tão emergentes, é preciso, primeiro, promover a conexão com o ecossistema do qual fazemos parte, começar olhando à nossa volta e perceber as particularidades, influências, fragilidades, o que precisa de atenção e ação… como foi feito pelo Mentalidade Marítima. Se não percebemos o oceano nos processos sociais e econômicos mais básicos, como vamos entender sua importância global, como na manutenção do clima e reciclagem do ar? Se apropriar do que é nosso, do que nos cerca é o primeiro passo para expandir as reflexões a níveis maiores, nacional e mundial. Por isso esse projeto foi tão importante ao longo dos seus 13 anos de atuação e ainda hoje pela experiência e aprendizado que deixou.    
REFERÊNCIAS
 
NEMA. Ondas que te quero mar: Educação Ambiental para comunidades costeiras: Mentalidade Marítima: relato de uma experiência. Porto Alegre, Gestal, 2001.

Acesse o texto original aqui.

Sabrina Araujo
Graduada em História (FURG).
Tema de pesquisa: História Local e Memória.
 
 

 


Escrito por: Ribombo

Ribombo é o nome dado a um novo grupo de pesquisa e estudos criado em 2018 e resulta do envolvimento com investigações, atividades de ensino, extensão e de gestão em políticas públicas em educação ambiental ao longo das últimas duas décadas. Como perspectiva, busca estudar os fundamentos da EA, bem como a educação ambiental articulada ao tema das mudanças ambientais globais, fenômeno que traspassa a experiência civilizatória contemporânea, e a questão dos objetivos do desenvolvimento sustentável. Utiliza o blog como uma das suas estratégias de comunicação e intercâmbio, buscando publicizar a produção acadêmica, disseminar informações e socializar fontes de pesquisa e a produção de material audiovisual.

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