Vivendo meu “exílio” – a potência da ressignificação da obra de Paulo Freire

Por Rachel Hidalgo em 8 de abril de 2020

 
 
Seja pelo confinamento que vivemos neste atual momento de crise[1] – extremamente oportuno para as autoanálises – seja pela grandiosidade do pensamento de Paulo Freire, posso dizer que “Pedagogia do Oprimido” foi o livro que mais mexeu comigo nos últimos tempos. Há mais de vinte dias buscando encontrar formas de viver menos desconfortáveis diante do isolamento social, sentada diante do computador, as palavras lidas em voz alta parecem ter tido um “encaixe” muito mais efetivo do que tiveram na minha primeira experiência de leitura, há alguns anos atrás.
E logo de início já consigo entender o motivo dessa sensação. A primeira vez que tomei conhecimento do trabalho de Paulo Freire foi de maneira objetiva, ou seja, o fiz com a missão de desenvolver alguma atividade acadêmica, a qual contava com um prazo, entre tantos outros prazos de atividades diversas. Além disso, também solicitava uma performance, uma apresentação que me causava ansiedade e, por isso, me distraia da experiência efetiva da leitura.
 
Hoje, enquanto escrevo o presente texto, com a intenção de desenvolver pensamento sobre o livro “Pedagogia do Oprimido”, de Paulo Freire, me dou conta de que, ainda que esta segunda vez também conte com data pré-determinada e uma performance textual, isto é, a redação destas palavras, eu não tinha, de fato, tomado “consciência da consciência” (1987, p.39) dos temas que estavam sendo a mim apresentados. E sei disso porque, dessa vez, enclausurada, sem tantas distrações do dia a dia, realmente, fui capaz de “reconstruir” (1987, p.31) uma série de ideias, deixando que a primeira apreensão, um tanto superficial, pudesse “morrer” (1987, p.31) para dar lugar a pensamentos mais desafiadores, capazes de desenvolver uma “co-intencionalidade” (1987, p.31) a partir da nova noção da Pedagogia Freireana em meus estudos. Tamanha surpresa tive quando redescobri depois de uma breve pesquisa, pois relembrei e ressignifiquei, que Freire escreveu tal obra durante seu exílio no Chile.
 
Paulo Freire, na época da produção do livro, foi forçosamente levado a deixar sua casa, seus/suas familiares e amigos/as, por conta do regime militar no Brasil durante os anos de 1964 a 1985. Uma vez afastado, se colocou a pensar em práticas pedagógicas que desenvolveu em conjunto com seus/suas educandos/as, entretanto, não de maneira instrumental, criando novos métodos de ensino. O que ele fez foi colocar em ampla análise a maneira como se relacionam professores/as e alunos/as, em diferentes escalas, para mostrar que está na relação interpessoal a chave para educação libertadora. Neste sentido, interseccionando temas como classe social, contexto espacial, linguagem e outros.
 
Dessa forma, Freire refletiu e, por isso, realizou uma ação por meio da palavra criticizada (1987, p. 44) sobre um ensino-aprendizagem revolucionário. Diferenciando seu discurso, carregado de experiências ressignificadas, desse modo, resultante de uma “reflexão-ação”, de “ativismos, verbalismos e palavrerias” (1987, p. 44). Escreve: “Não há palavra verdadeira que não seja práxis” (1987, p. 44) e, com isso, nos abre espaço para a compreensão de que o aprender se efetiva somente “na medida de nossas ações” (1987, p. 47), do contrário, seguimos como recipientes para “depósitos” (1987, p. 36) – sendo este último a inspiração para a noção de “Educação Bancária” (1987, p. 36).
 
É neste movimento que podemos ver em sua produção temáticas como conscientização, autonomia, liberdade e práxis social, sendo que as mesmas se desenvolvem a partir de uma historicidade que, como justificou o autor por meio das palavras de Pierre Furter, organiza uma “temporalização do espaço” (1987, p. 47). Tal categorização foi bastante esclarecedora quando notei que, ao ler o trabalho de Freire e rever meus estudos em outro contexto, ou seja, refletir sobre eles durante o período de confinamento, inserindo tais conhecimentos em “situação” (1987, p. 48), estaria eu, agora sim, historicizando suas palavras. Palavras que não estariam mais soltas no ar, em uma leitura dinâmica que se objetiva para uma ação específica, mas sim, permitindo temporalizar meu atual espaço de vida.
 
Com este intuito, retirei a leitura de Freire do lugar de uma simples “narração” que eu mesma fazia de suas palavras para transformar seu conjunto de ideias em um objeto cognoscível diante da incidência de minha própria reflexão (1987, p. 40). Assim, reelaborando o conceito de educação revolucionária a partir de “visões impregnadas de anseios, de dúvidas, de esperanças e desesperanças” (1987, p. 48) que me causam a atual crise mundial, que fui capaz de inaugurar um momento histórico em minhas conexões mentais relacionadas ao que sabia do trabalho de Freire.
 
Um simples exemplo, mas que está entre os mais marcantes desse evento, é sua explicação sobre o conceito antropológico de cultura nas palavras de um camponês que foi seu educando. Quando este conta sobre sua descoberta de não haver “um mundo sem homem” – afinal, podem existir árvores, mares e estrelas, mas é necessário um/a ser humano/a para dizer que “isto é mundo” (1987, p. 40-41) – nenhuma outra explicação me pareceu mais acessível, e por isso, mais fácil de captar, do que esta. Certamente tinha trilhado esta passagem da primeira vez, mas agora, focada e com tempo hábil para ler, reler e pensar, criando um espelhamento com outras leituras que já fiz, a exemplo de autores como Norbert Elias (1990), Manuel Castells (1999) e outros, foi uma experiência de leitura completamente diferente. Eu sinto que agora entendi de maneira tão mais “embebida, entranhada, penetrada”, que poderia reelaborar tal conhecimento para absorção em diversos outros contextos, criando exemplificações, outros nexos, e qualquer outro método que fosse necessário para tornar compreensível para outra pessoa que ainda não tivesse passado pelas palavras de Freire. E, por isso, sinto que, de fato, aprendi.
 
Quando digo “sinto que aprendi” é porque ao refletir sobre tal conceito, o que ocorreu foi uma sensação de um “círculo completo”, ou seja, tentando tornar visível a questão: sinto que captei o conhecimento, inseri o mesmo na minha própria realidade, caminhei debatendo-o com dúvidas do meu contexto, respondi estas a partir do confronto de diferentes pontos de vista de determinado repertório e, assim, tive material suficiente para recriar a história na minha cabeça, voltando a captar o mesmo conhecimento em uma segunda leitura, mas agora embebido de mim mesma.
 
Me isolando de minhas costumeiras atividades, como disse Freire (1987, p. 51), me separando do mundo que objetivo através do meu ofício, das minhas relações sociais e outros, pude analisar com em um nível mais reflexivo as minhas próprias “situações-limites” (1987, p. 51) e com a atitude da reflexão que se concretiza, em alguma medida, por meio do presente texto, sinto como se tivesse efetivando um “ato-limite”, nas palavras do professor Álvaro Vieira Pinto, no livro de Freire, “(…) àquele que se dirige à superação e à negação do dado, em lugar de implicarem na sua aceitação dócil e passiva (1987, p. 51).
 
Neste momento, “exilados/as”, distanciados/as de nossas práticas rotineiras e nossos círculos sociais de “corpo presente”, tudo parece contaminado dos sentimentos que esse novo comportamento nos causam. Por esse motivo, talvez, Freire e eu passamos pela experiência do olhar crítico para o nosso fazer: o primeiro, autor de um dos livros mais famosos do mundo no campo da Educação; e a segunda, que exercita tais informações no presente texto, “ilustrando” o processo de re-conscientização da pedagogia freireana a partir de uma segunda leitura.
CASTELLS, Manuel. A era da informação: economia sociedade e cultura. A sociedade em rede. São Paulo: Paz e Terra, 1999.
ELIAS, Norbert. O processo civilizador. Volume 1: Uma história dos costumes. Tradução de Ruy Jungmann. Revisão e apresentação: Janine Ribeiro. 2ª ed. Rio de Janeiro: Zahar, 1990.
FREIRE, Paulo. Pedagogia do Oprimido. 17ª ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1987.

[1] Desde o final de 2019, o Mundo passou a viver uma crise resultante da disseminação da COVID-19, vírus que pode ser fatal em determinadas pessoas, e que colocou populações de diversos países em confinamento obrigatório, ou orientado, para a redução do contágio.

Escrito por: Rachel Hidalgo

Graduação em Comunicação Social (UNISANTOS), licencianda em Artes Visuais (UNIP), mestrado em Educação Ambiental (CAPES/FURG) e doutoranda no mesmo programa (CNPq/FURG). Tema de pesquisa: Educomunicação Socioambiental por meio do suporte audiovisual.

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