Ciência e Religião no contexto das Mudanças Climáticas

Por Alisson Lucena em 4 de abril de 2020

Ciência e religião têm uma história de paixão e ódio. Durante muitos séculos só se fez ciência através da religião. Existiam mosteiros onde os monges se dedicavam à cópia de livros, quando ainda não havia sido inventada a imprensa. Muitos dos livros eram puramente teológicos, mas vale lembrar que teologia era a ciência da época. A religião explicava os fenômenos naturais, até que o monopólio do livro deixou de ser da Igreja e passou a ser secular. A ciência se desmembrou da religião e tomou seu próprio caminho. Porém hoje os dois caminhos se encontram novamente (se é que realmente se desencontraram um dia) em uma confusão entre concordância e negacionismo onde a chuva de informações da era digital mais atrapalha do que ajuda. Claro que não podemos esquecer que religião, nesse sentido aqui exposto, é a religião do Ocidente, o cristianismo. Existem milhares de religiões no mundo onde a natureza tem um papel essencial na vida humana e deve ser pensada além da nossa necessidade de consumo, mas não é a realidade do Ocidente.
Desde que o cristianismo fundou as bases mentais do capitalismo (ou foi influenciado por ele, essa discussão ainda persiste) temos um modo de enxergar a natureza: como “recurso natural”. Na verdade o domínio da natureza já era reivindicado pelos cristãos antes do advento do capitalismo.
Durante esse período, antes da Revolução Industrial, os cristãos ocidentais afirmavam o seu controle sobre o conhecimento da natureza ao desqualificar todos os conceitos existentes e igualmente válidos de conhecimento, e ao ignorar conceitos que contradiziam o seu próprio entendimento da natureza. (MIGNOLO, 2017, p.7)
Por muito tempo a ciência moderna herdou o comportamento do seu irmão cristianismo, ao se entender como absoluta e recusar críticas externas.
Não é difícil, diante disso, imaginar o ceticismo com o qual o engenheiro britânico Guy Stewart Callendar (1898-1964) foi recebido por seus pares em 1938, quando afirmou que os seres humanos já era agentes climáticos perceptíveis. […] A afirmação de Callendar contrariava os livros-texto de meteorologia da época, segundo os quais a única influência humana possível no clima era temporária e local. Ademais, Callendar não era propriamente um cientista, mas sim um “técnico em máquinas a vapor” […]. (ANGELO, 2016, p.58)
Podemos dizer que o negacionismo interno na ciência pode ter gerado o negacionismo da própria ciência, discussão que o documentário “A Terra é Plana” (2018), disponível na Netflix, trás com muita precisão. Enquanto a ciência moderna se isolava em suas torres de marfim, cercada por experimentos e teorias só entendidas por seus pares, uma população imensa estava isolada dessas discussões. Sendo assim, podemos entender porque algumas pessoas estão colocando uma régua no horizonte e gritando “a terra é plana!”, ou porque é muito fácil para líderes mundiais negarem as mudanças climáticas e o aquecimento global: a ciência nunca se importou com quem não fosse seu par.
No entanto, a Terra é lar dos religiosos e dos cientistas, e ela está mudando com a nossa influência. Ao relembrar a descoberta dos danos que o CFC fez à camada de ozônio nos anos 80, Claudio Angelo, em seu livro A Espiral da Morte: como a humanidade alterou a máquina do tempo, nos mostra que “sim, somos nós” que estamos causando dano ao planeta. Mais adiante, nos anos 90, foi divulgado o estudo que comprovava a influência humana no clima, amplamente negado pelos “céticos do clima”, financiado pelas empresas que contribuem significativamente para essa influência climática (p.76).
Os diversos acordos sobre o clima, por mais ambiciosos que sejam, ainda não conseguiram atuar significativamente para redução de emissões de CO². A narrativa econômica tem ganhado de lavada da narrativa ambiental. A religião se aliou à narrativa econômica há algum tempo. Fico pensando que mundo teríamos construído se a religião ocidental tivesse se aliado à ciência. Na luta contra as mudanças climáticas precisamos de mais aliados, isso significa falar a língua dos corações que queremos conquistar. A ciência está disposta a isso?

Escrito por: Alisson Lucena

Historiador em formação. Fotógrafo amador. Músico fracassado.

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