Dossiê Temático ed. 2: As águas da minha vida ( e como elas morreram)

Por Alisson Lucena em 9 de fevereiro de 2020

Quando era criança existia o arroio. Era um lugar onde todos da vila se encontravam. Lembro de ir escondido da minha mãe assim como todos os meus amigos, pois nenhuma mãe queria seu filho de 7 anos nadando sozinho no arroio. Eu não sabia nadar, mas sabia que, quando se faz calor o rumo é a água. Dizia para a minha mãe que ia jogar bola (assim nascem os mentirosos) e rumava ao arroio. Passava a tarde inteira lá, até porque após o banho tínhamos que nos secar. Deitados na areia, esperando o sol secar a bermuda, voltávamos pra casa orgulhosos do crime cometido. As autoridades jamais descobririam. Até que, em um dia de muito calor: O arroio amanhece morto.
Era um rio de peixe morto. Lembro como se fosse ontem. O cheiro e a cor do arroio mudaram. Foram necessárias várias viagens de caminhões para limpar o arroio. Quando enfim limpo, morto. Ninguém mais fugia da mãe para tomar banho, ninguém se protegia do calor lá. Realmente saíamos de casa para jogar bola. Por anos achava que tinha sido algo criminoso. Não é possível um arroio morrer. Mas ao me deparar com essa notícia, vi que não foi nada criminoso. Foi um fenômeno natural. Muito calor, por muito tempo. O arroio vai secando, oxigênio acabando, os peixes morrem.
Um ano depois eu mudo de águas. De um arroio que corta a vila para a imensidão do mar. Todos os dias de verão lá, caminhando, tomando banho, jogando bola. Enfim, sempre em busca de água para aliviar o calor. Apesar de ainda preferir o arroio, o mar dava conta. E mesmo quando saí em busca de liberdade e autonomia foi outra parte do Oceano Atlântico que eu escolhi como casa. Acharia estranho se fosse diferente. Agora sim eu tenho um refúgio do calor. É impossível matar o mar.
FONTES:
Jornal Agora, 11 de março de 2004.
Correio 24 Horas. <https://www.correio24horas.com.br/noticia/nid/oleo-
misterioso-chega-a-praia-do-forte-no-litoral-norte-baiano-veja-video/>
Metro Jornal. <https://www.metrojornal.com.br/foco/2019/10/23/oleo-interdita-
praias-e-impede-banho-em-morro-de-sao-paulo.html>
Jornal O Globo. <https://oglobo.globo.com/sociedade/oleo/apos-60-dias-manchas-
de-oleo-crescem-dependem-da-acao-de-voluntarios-no-nordeste-24046963>
O segundo dossiê do Ribombo “Sensibilidades Ambientais” está  disponível para download gratuitamente, basta clicar aqui.

Escrito por: Alisson Lucena

Historiador em formação. Fotógrafo amador. Músico fracassado.

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