Dossiê Temático ed. 2: Você e o todo

Por Guilherme Almeida em 3 de janeiro de 2020

Minha jornada por esse texto começa em São Paulo, que além de ser minha terra natal é uma grade metrópole dominada pela lógica do capital, isto é, a forma como nos relacionamos, seja com outras pessoas, seja com o ambiente/natureza ao nosso redor, está totalmente submersa numa lógica que surge lá no século XVIII na Inglaterra. Essa lógica, a capitalista, que entende não só a natureza, mas todos os outros elementos ao nosso redor como objeto passivo de compra. Sinto que isso gera um sentimento de posse em relação a tudo e a todos os presentes em nosso cotidiano, é algo tão profundo em nosso subconsciente que mal podemos perceber.

Acredito que é fundamental começar esse texto fazendo essas colocações, porque é com base nessa lógica, acredito eu, que as pessoas que lá nasceram e se criaram, concebem o mundo. É através da lógica do capital, que os sentidos que apreendem o mundo estão sendo guiados, é claro, em diferentes níveis dependendo do patamar de desenvolvimento do capital no seu lugar de origem.
Não há sensibilização dos sujeitos por meio dos sentidos (visão, tato, olfato, audição e o paladar), mas sim uma satisfação das necessidades que por meio destas se manifestam transversalmente sob a lógica do consumo, ou seja, só sentimos aquilo que podemos comprar e obter posse.
Em contrapartida, penso em um sentimento muito recorrente em mim e em outras pessoas de forma geral. Sabe aquela sensação boa quando vamos viajar para um lugar onde tem muito “verde”, ou alguma beleza natural (praia, cachoeira, ou simplesmente um ambiente mais naturalizado), que desperta um sentimento de paz, tranquilidade e um vigor físico e mental? Então, há um elemento sensível no ser humano em relação ao ambiente ao nosso redor, nos conectamos com ele de várias formas, sentimentalmente, sensivelmente, culturalmente, historicamente, etc… Mas há algo na natureza, diferente do urbano, que gera um sentimento parecido com aquele de chegar em casa depois de uma dia cansativo ou depois de muito tempo longe. É um conforto maternal.
 
Algumas religiões e formas de espiritualidade orientais como o Budismo, os Vedas, tanto quanto as cosmologias sul-americanas, vivem e defendem outra forma de conceber e se relacionar com a natureza/ambiente, o “Todo”. Para eles o ser humano e tantas outras formas de vida, são a manifestação singular do Todo, ou seja, não existe diferença entra a forma de vida humana ou a de outros animais, plantas, etc… Diferente das sociedades ocidentais que estabeleceram uma separação entre o sujeito humano e a natureza, pautado na relação de posse, essas outras epistemologias defende o contrário. Então, quando estamos em contato “Todo”, retornamos para “casa”, nos reconectamos com essa força primordial e estamos completos.
 
Para eles, essas sensações e sentimentos provem do preenchimento desse vazio existencial presente em todos nós, muito em função desse afastamento programado das sociedades ocidentais em relação à natureza. Quando estamos em contato com “Todo” nos completamos mais uma vez, voltamos para nosso habitat natural. Partindo das premissas dessas crenças, penso que provem dessa lógica esse sentimento de singular sintonia e harmonia em relação o ser humano e natureza, um faz parte do outro, em uma relação quase simbiôntica.
 
Diante disso, gostaria de compartilhar uma experiência recente ao visitar uma comunidade Guarani em Camaquã, durante três dias. A proposta era partilhar as vivencias indígenas, ou seja, durante nossa estadia compartilharíamos todo seu cotidiano, costumes e cultura, exatamente (ou quase) como eles. Devo admitir que foi uma experiência transformadora, nossa relação com as outras pessoas, com os animais, e por fim, a natureza, era totalmente contrária a que estamos acostumados nas cidades. Estávamos juntos, não só presencialmente, mas conectados. Seu João, o Karaí da comunidade (liderança espiritual), nos disse que “tudo veio da terra, ela é nossa mãe e por isso nos sentimos tão bem com ela, afinal, quem não se sente bem no colo da mãe?” Suas palavras me tocaram, repensei meu cotidiano e tantas outras coisas que são naturais a nós, como a ideia de trabalho e também, a ideia do tempo, classificações que, no momento histórico em que vivemos nos moldam e guiam em nossas relações cotidianas e com a natureza.
 
Hoje, acredito podemos ir um pouco além em relação a forma como sentimos e nos relacionamos, seja com outras pessoas, seja com aos animais e a natureza. Fomos colonizados pela lógica do capital que transforma tudo em material, precisamos mudar nosso olhar para outros lugares, outras formas de ser e estar no mundo. Somos seres espirituais extremamente ligados com o “Todo”, explorar essa relação pode nos salvar desse vazio existencial que falsamente nos foi ensinado a preencher com coisas, produtos, o retorno nunca se fez tão necessário.
O segundo dossiê do Ribombo “Sensibilidades Ambientais” está  disponível para download gratuitamente, basta clicar aqui.


Escrito por: Guilherme Almeida

Estudante de História - Licenciatura pela Universidade Federal do Rio Grande, no atual momento estou cursando o último ano da Graduação. Minha linha de pesquisa se concentra na área da Educação.

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