Dossiê Temático ed. 2: Vilas Marias e buracões

Por Rafael Simione Paiva em 7 de janeiro de 2020

Quando decidi por vir para Rio Grande estudar, muito me perguntava quais seriam as novas experiências que iria viver: um novo estado, uma nova cidade, uma casa nova, amigos novos e por que não uma família nova? Confesso que dentre tudo isso, o que mais me preocupava era minha nova casa, pois gostarmos e nos sentirmos bem onde moramos faz toda a diferença para nossa vivência nesse determinado local. No meu caso, gostar de minha nova casa implicaria ter um maior deleite de minha experiência como universitário.


Daí minha surpresa quando “caí de paraquedas” na Vila Maria. No primeiro 
momento me causou um estranhamento por estar andando pelas ruas de um lugar totalmente desconhecido, porém, andar por essas mesmas ruas fez eu me sentir em casa, parecia que eram as mesmas pessoas que eu via e conversava quando saía pelas ruas de meu antigo bairro: as mesmas Donas Marias, os mesmos Seus Joãos, os mesmos “manos” nas esquinas, e claro, muitos dos mesmos problemas que o famoso “Buracão” (que na verdade se chama Chácara Solar II, mas ninguém o chama assim, e é o bairro em que cresci, numa cidade chamada Santana de Parnaíba, na região metropolitana de São Paulo/SP) também tinha.
 
Lixo nas ruas, esgoto a céu aberto, ruas de barro, enchentes, pessoas perdendo seus bens devido às chuvas, e também, apesar de muitas vezes não ser um problema, principalmente pra gente que mora em área periférica, a falta de policiamento pela área. Mesmo assim, há pessoas que se sentiriam mais seguras havendo rondas da polícia pelo seu bairro, portanto, deixo esse elemento como mais um problema.
 
Estranhamente, mesmo estando num ambiente totalmente novo, era como se eu já estivesse habituado ao seu cotidiano, o que de certo modo era o que acontecia, já que a Vila Maria e o Buracão tinham mais coisas em comum do que diferenças – diferenças como o linguajar, onde aprendi a substituir o “menor” pelo “guri”, e o “parça” pelo “cupinxa”, e também a existência de muitas ladeiras lá, coisa que aqui não encontro, por exemplo.
 
No entanto, justamente por me sentir em casa, inúmeras angústias me faziam e fazem companhia até hoje. Lembro-me, a título de exemplo, de várias e várias vezes assistir na TV e nas redes sociais as consequências que a chuva em grande quantidade deixa nas localidades que não possuem acesso ao mínimo de seguridade, no tocante ao saneamento básico. Muito me dói ver essas mesmas Donas Marias e esses mesmos Seus Joãos perderem suas coisas que tiveram de fazer um esforço absurdo para conquistarem, no intuito de garantirem uma condição de vida melhor para si mesmos e para suas famílias.
 
Por isso, levando em conta tudo o que sinto andando por essas ruas, seja pela visão, vendo os rostos das pessoas, a condição das ruas, das habitações; pela audição, ouvindo as discussões dos casais, os diálogos das criancinhas brincando nas ruas, as músicas que estão tocando durante alguma confraternização; ou mesmo pelo olfato, sentindo o cheiro do pão quando está sendo assado, o cheiro de esgoto, o cheiro de animais mortos, já em estado de decomposição, em alguns locais específicos etc., sinto que eu saí do Buracão e fui parar em outro, uma vez que é inegável que ter crescido e vivido por 18 anos nele, me fez ser quem sou e justifica eu ter me adaptado tão rápido a um lugar de certo modo desconhecido para mim.
 
Devido a tudo isso, tendo vivido tudo o que vivi, tenho a certeza de onde é o meu ambiente, onde pertenço, pois mesmo possuindo muito mais problemas do que os citados acima, eu duvido que qualquer bairro que ofereça toda e a melhor infraestrutura do mundo, que morem pessoas com as melhores condições de vida possíveis, seja capaz de oferecer a sensação de acolhimento que as/os milhares de Vilas Maria e Buracões oferecem, já que quem faz o ambiente, para além de somente serem os constituintes físico naturais, são as pessoas. E as minhas, caros leitores, que mesmo morando em ambientes muitas vezes indignos de viverem, são as mais acolhedoras que existem!


O segundo dossiê do Ribombo “Sensibilidades Ambientais” está  disponível para download gratuitamente, basta clicar aqui.


Escrito por: Rafael Simione Paiva

Graduando em História (FURG). Tema de pesquisa: A potencialidade da Educomunicação no Rap Paulista.

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