Dossiê Temático ed. 2: Casa de vó

Por Ribombo em 15 de dezembro de 2019

Minha vó mora numa chácara na Caieira, localidade rural de Mostardas/RS, e a casa dela com toda sua riqueza, simplicidade e história é o lugar que mais me remete afetividade quando penso em meio ambiente. É o meu lugar.
Lá que eu passava sempre todos os finais de semana e parte das férias, e eu não gostava disso. Quando criança, eu tinha medo até dos pintos, a vó conta que quando entrava um dentro de casa eu subia numa cadeira, não gostava de me sujar e nem saía pra rua, minhas tias brincavam que eu era a única que podia ir de roupa branca pra Caieira que voltava limpinha. Depois, lá pelos 11/12 anos eu gostava menos ainda, era nos finais de semana que minhas amigas se reuniam umas na casa das outras e eu nunca podia estar. E foi por essa época que eu comecei a ler muito, pegava pelo menos dois livros na biblioteca da escola ou na municipal pra levar pra ler no fim de semana. E eu li muitos livros, sempre “entocada” em casa, encolhida num cantinho com um livro na mão enquanto minhas irmãs e meus primos se sumiam campo afora. Daí vem o apelido que minha vó carinhosamente me deu e usa até hoje: corujinha.
Hoje isso parece não fazer nenhum sentido, eu lembro de não gostar de ir pra lá, assim como lembro também de gostar. Adoro estar lá e sinto muita falta da presença desse lugar na minha vida em Rio Grande. Lembro de bem pequena observar meu vô fazer rede de pesca e tarrafa, com agulha de bambu também feita por suas mãos. E de ir pescar com meu pai, minha mãe e quem mais estivesse na chácara, no canal, que leva água da Laguna dos Patos pras lavouras, na própria laguna (que ainda chamamos de lagoa), no agual e na sanga. E de pescar lambari com meu primo na ponte, com caniços pequenininhos que a gente fazia com bambu.
Minha vó tem a hortinha dela, onde planta hortaliças para consumo e tem um pomar, que também chamamos de horta. Passávamos horas lá brincando e subindo nas árvores, tem pés pera, laranja, bergamota, goiaba, caqui, lima, limão, pitanga, araçá, butiá, figo e romã. Tem a “casa velha”, um pedaço de campo vazio onde ficava a primeira casa, na qual moravam os pais do meu vô, por isso casa velha. Ali tinha também uma moita de bambu, com passagens e espaços perfeitos para brincadeiras, onde minha mãe e minhas tias brincavam quando crianças de casinha e boneca. Tem um espaço nos fundos da casa com eucaliptos, onde às vezes à noite pousam corujões, e mais adiante o passo – um banhado – onde sempre tem aves que gostamos de olhar. Lugares por onde eu andava esperando encontrar uma fada voando ou um duende se escondendo como nos livros que eu lia, onde eu ia com minha irmã enquanto ela tirava fotos das pequenas coisas que aprendi a admirar e amar, as plantinhas, cogumelos e insetos. No jardim tem um caldeirão, usado antigamente para derreter banha e que eu digo pras crianças que é mesmo um caldeirão de bruxa. Digo que a vó é uma bruxa assim como a mãe dela era, e elas acham incrível e a vó confirma minhas histórias, que não deixam de ser verdade.
Caminhar de manhã cedo até a lagoa ou ir de cavalo de tardezinha, deitar embaixo da figueira, andar até a porteira depois do almoço, ir até o passo ver o pôr do sol, procurar antiguidades por todo canto, carregar a lenha que meu pai corta, dar comida pros patos e galinhas, sentar perto do fogão a lenha no inverno cuidando os pinhões que assam na chapa, escutar as piadas contadas pelo meu tio avô (que nem sempre fazem sentido ou têm graça)… São esses e tantos outros momentos que fazem falta na correria do dia-a-dia aqui, que me fazem sorrir e ansiar a próxima ida à Mostardas.
As coisas não são mais como já foram um dia. Da horta de frutas a cada ano colhemos menos ou quase nada, é só um monte de árvores que perde um pouco de cor e de vida a cada passada do avião que coloca veneno nas lavouras de arroz que cercam a terra.
Lavouras onde meu pai trabalhou muitos anos como “aguador”, lembro de ir com minha mãe levar almoço para ele. Lavouras que aumentam e mudam a paisagem que amamos. Ninguém mais faz redes como meu vô e poucas vezes fizemos pescaria nos últimos anos. Mas o céu de lá ainda tem mais estrelas e pisar naquela terra é melhor que pisar em qualquer outra.

O segundo dossiê do Ribombo “Sensibilidades Ambientais” está  disponível para download gratuitamente, basta clicar aqui.


Escrito por: Ribombo

Ribombo é o nome dado a um novo grupo de pesquisa e estudos criado em 2018 e resulta do envolvimento com investigações, atividades de ensino, extensão e de gestão em políticas públicas em educação ambiental ao longo das últimas duas décadas. Como perspectiva, busca estudar os fundamentos da EA, bem como a educação ambiental articulada ao tema das mudanças ambientais globais, fenômeno que traspassa a experiência civilizatória contemporânea, e a questão dos objetivos do desenvolvimento sustentável. Utiliza o blog como uma das suas estratégias de comunicação e intercâmbio, buscando publicizar a produção acadêmica, disseminar informações e socializar fontes de pesquisa e a produção de material audiovisual.

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