Literatura climática: O caso da família Zeitoun e o furacão Katrina

Por Felipe Nobrega em 22 de novembro de 2019

A produção de literatura sobre mudanças ambientais globais, especialmente as mudanças climáticas, se restringe, em sua grande maioria, aos círculos acadêmicos, científicos. Ou seja, uma produção especializada e de pouco alcance com a maioria da população.
Nos últimos anos, especialmente na última década, esse cenário passou por algumas transformações, já que o avanço do debate sobre os impactos das mudanças climáticas passou a fazer parte da agenda de notícias internacionais, portanto no cotidiano das pessoas e, consequentemente, influenciando diretamente o mercado editorial na busca de trabalhos acessíveis ao grande público.
É desse movimento que uma série trabalhos passaram a ser publicizados, e podem colaborar para dois movimentos: uma forma acessível de compartilhar o conhecimento sobre o tema, e a revisão crítica dessas publicações que podem nos ajudar a discutir essa que é uma questão fundamental nos dias de hoje.
E é nesse sentido que a obra Zeitoun surge, como um livro que tanto aborda o dramático tema do furacão Katrina em New Orleans, Estados Unidos, em 2005. A história é real, e traz à tona o impacto desse fenômeno ambiental na vida familiar das pessoas atingidas, valendo-se de uma narrativa que acompanha o caso de Abdul Zeitoun, sua esposa e filhas, quando ele permanece na cidade para resguardar a residência, enquanto sua esposa sai da localidade com as crianças em busca de abrigo assim que é disparado o alerta geral.

Quando chegaram em casa, já eram cinco horas e o noticiário estava dominado pelo Katryna. A família viu imagens de ondas gigantes, árvores arrancadas, cidades inteiras cobertas com uma chuva cinza torrencial. O Centro Nacional de Furacões sugeria que o Katryna logo se transformaria num furacão de categoria 3 (EGGERS, p. 62)
 
E quando parecia suficiente o fato de terem suas vidas completamente modificadas por um evento extremo, Abdul acaba preso acusado de saquear uma residência. Porém, essa é uma acusação, e o livro toma isso como ponto de inflexão, que só existe pelo fato dele ser de origem muçulmana, agregando ao elemento natural entendimentos culturais dentro dos EUA.
 
Ele é preso, literalmente, em uma jaula. Permanece por um tempo tentando provar sua inocência, na mesma medida que sua esposa, após ficar aliviada que a falta de notícias do marido não significava sua morte, inicia uma jornada para soltá-lo – o que irá custar bastante caro para sua saúde mental, consequentemente.
 
Sua soltura, no entanto, não significa o fim dessa história que parte de uma discussão climática, de um fato natural marcante e aterrador para os habitantes de New Orleans, mas sim aumenta a complexidade dessa relação cultura/natureza. Bastou à chegada de um evento como esse, para que, em seguida, as amarras do processo civilizacional fossem desfeitas e tivesse início a perda de referências mínimas de humanidade com os envolvidos a partir de um preconceito intrínseco a América inaugurada por George W. Bush: o inimigo permanente que vem do Oriente Médio e cria a Guerra ao Terror.
 
Lançado em 2009, e escrito por David Egger a partir da coletânea Voices from the storm, o livro se transforma em um inventário sensível dos impactos de fenômenos ambientais no cotidiano dos sujeitos. Seja nos momentos anteriores, quando os primeiros sinais são percebidos, durante, e a partir da virada que leva a prisão de Abdul, acompanhamos um registro histórico de o quanto a nossa relação com a Natureza e seus fenômenos merecem mais do que nunca serem repensadas na atualidade não só pelo que representam os impactos das mudanças climáticas, mas o quanto existe um diálogo direto com a Cultura uma questão como essa. 
 
O consenso da mídia era que Nova Orleans havia se transformado em uma cidade do “Terceiro Mundo”. (EGGERS, p. 129)
 
Livro: Zeitoun
Autor: David Eggers
Editora: Companhia das Letras, 2011
Tradutor: Fernanda Abreu

Escrito por: Felipe Nobrega

Graduação em História (FURG), mestrado em História (UFRGS) e doutorando em Educação Ambiental (CAPES/FURG). Tema de pesquisa: Fenômenos Ambientais Costeiros e Mudanças Climáticas.

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