Dossiê Temático ed. 1: Decolonialidade, desconhecidamente presente

Por Ribombo em 30 de novembro de 2019

Foto: passupretoimageria.wordpress.com
Decolonialidade é um termo que não fazia parte do meu glossário até o primeiro contato através de um dos podcasts do grupo de pesquisa Ribombo. Contato um tanto tardio considerando a importância das discussões que abarcam este campo, ainda mais se tratando de uma estudante de História latino-americana. Mas, como antes tarde do que mais tarde, ao me deparar com tal conceito fui em busca de tentar entender esse mundo decolonial, que de início pareceu-me um tanto complicado, mas aos poucos foi ganhando sentido, pois é algo que já estava presente, eu só não sabia que o nome era esse. Estava presente, pois é quase impossível pensar em história e não pensar nos processos de colonização/dominação, da mesma forma que em descolonização (independências) e assim, é inevitável não pensar nas consequências e influências desses acontecimentos, que são o objeto de estudo da decolonialidade, ou seja, o que fica da colonização, após a descolonização. Podemos ver a aplicação desse conceito desde esferas mais próximas de nós, como pensar em um hectare de terra de uma comunidade indígena ou quilombola apropriado por um latifundiário, em nossa cidade colonizada por imigrantes, no país ou em toda a América Latina feita de colônia de exploração, e veremos que aí está presente a relação de dominação, exploração e expropriação colonial, que por sua vez, demanda uma ação decolonial que rompa com isso.
Minha imersão nesse tema, portanto, é bastante recente e ainda não me apropriei o suficiente para estabelecer uma discussão consistente, surgindo apenas alguns questionamentos. É possível construirmos um conhecimento livre da influência do colonialismo? Como fazemos isso? Quais ferramentas podemos utilizar? Seriam as metodologias participativas como a Pesquisa-Ação e História Oral meios para se construir uma história decolonial?
Acredito que seja importante colocar aqui que colonialismo não é o mesmo que colonialidade. Colonialismo é a estrutura político-administrativa pautada na relação metrópole/colônia e colonialidade é o conjunto de fatores que permanecem mesmo após o fim do colonialismo, como as formas de ver e pensar o mundo e produzir conhecimento, às quais estamos ainda muito ligados. Assim, passamos por um processo de descolonização no século XIX com os movimentos de independência, mas não passamos pelo processo de decolonização, ou seja, não superamos essas categorias oriundas do processo colonial e enraizadas na nossa sociedade. A proposta decolonial visa contar a história pelo ponto de vista dos subalternos, possibilitando que estes sejam sujeitos da história e não objetos de estudo, ou seja, reconstruir a história a partir da narrativa dos silenciados, reprimidos e subalternizados. Devemos superar a chamada “colonialidade do poder, saber e do ser”.
Ao tentar me aproximar da teoria decolonial enquanto estudante e pesquisadora em formação, me pergunto se a pesquisa que desenvolvi para o Trabalho de Conclusão de Curso do bacharelado poderia ser considerada de cunho decolonial. Ao fazer uma imersão na Comunidade Quilombola dos Teixeiras, em Mostardas/RS, para compreender como se dava a relação daquela população tradicional com a terra a que pertencem, fiz uso da História Oral e Pesquisa-Ação. Ambas são metodologias participativas que rompem com a relação sujeito (pesquisador)-objeto de estudo, dando lugar a uma relação sujeito-sujeito na qual o(s) colaborador(es) constituem-se como parte essencial do trabalho, que não é construído apenas pelas mãos e pelo olhar do pesquisador, mas por todos os envolvidos na pesquisa. As metodologias participativas atribuem protagonismo e a História Oral se legitima com a função e o dever de dar voz aos silenciados e marginalizados, superando o exclusivismo da História dos grandes homens e grandes fatos.
Realizar um estudo de dentro da comunidade e com a comunidade, vivenciando o cotidiano e a forma de organização dessa população, configura uma ação decolonial? Ao mesmo tempo que me parece que sim, entra o fato de que ainda sou eu a pessoa que de fato redigiu a escrita do trabalho interpretando as falas e as experiências obtidas a partir da minha subjetividade, de pessoa não quilombola.
Para finalizar, penso que o pouco que consegui apreender sobre a decolonialidade é bastante simplório, visto que este é um campo de estudos complexo ao qual ainda pretendo dedicar mais atenção. Ainda assim, foi possível compreender a relevância da produção de conhecimento decolonial, no sentido de ajudar a desfazer as amarras do pensamento colonial enraizado, que nos limitam em diversos âmbitos, tanto as que conduzem nosso pensamento e prática, quanto as que cerceiam nossa capacidade de nos desenvolvermos e nos enxergarmos enquanto América Latina.
Para saber mais sobre o Dossiê Temático “Decolonialidade” (Ed. 1/2019), clique aqui. 
 
Sabrina Araujo
 

Escrito por: Ribombo

Ribombo é o nome dado a um novo grupo de pesquisa e estudos criado em 2018 e resulta do envolvimento com investigações, atividades de ensino, extensão e de gestão em políticas públicas em educação ambiental ao longo das últimas duas décadas. Como perspectiva, busca estudar os fundamentos da EA, bem como a educação ambiental articulada ao tema das mudanças ambientais globais, fenômeno que traspassa a experiência civilizatória contemporânea, e a questão dos objetivos do desenvolvimento sustentável. Utiliza o blog como uma das suas estratégias de comunicação e intercâmbio, buscando publicizar a produção acadêmica, disseminar informações e socializar fontes de pesquisa e a produção de material audiovisual.

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