Dossiê Temático ed. 1: Para o decolonialismo acontecer você deve vivê-lo

Por Guilherme Almeida em 25 de outubro de 2019

Após visitar a comunidade indígena Tekoa Yvy‘ã Poty, pude não só aprender o que é o decolonialismo, além disso, pude vivenciar na prática o que significa essa teoria. Essa, que para mim se transforma em seu significado e em suas características acadêmicas, extrapolando os muros da universidade, acontecendo de forma viva diante dos meus olhos. Assim sendo, esse texto possui um caráter confessional, não busco aqui nenhuma pompa acadêmica a não ser no rigor técnico da escrita. Nesse texto segue o relato da experiência de um sujeito colonizado em contato com o saber e a cultura ―decolonizante‖ que viabilizou um processo de crescimento acadêmico, e o que pra mim se faz o mais importante, um crescimento pessoal.
 
O decolonialismo aparece como uma corrente teórica, que busca através da ciência, produzir um conhecimento que reconheça e valorize os saberes dos povos colonizados, que mesmo após o fim do sistema colonial vive diariamente as marcas e as instituições desse período. Entretanto, a meu ver, esta teoria esbarra nas estruturas do próprio sistema educacional no que se refere a produção e extensão do conhecimento dentro e para fora dos muros da universidade. Esse problema se dá devido ao molde eurocentrado no qual as universidades e escolas encontram-se fundadas.
 
Isso me leva a refletir sobre algumas questões: como construir um conhecimento genuinamente decolonial? Como extrapolar esse conhecimento para além dos muros da universidade? Esse conhecimento produzido dentro da universidade pode ser considerado inteiramente decolonial, levando em consideração que ainda está submetido às estruturas de produção de conhecimento eurocentrada?
 
Para refletir essas dúvidas não pude deixar de levar em consideração o momento histórico e político no qual nosso país atravessa com o desmonte da educação, a desvalorização da ciência, a retirada de direitos, a desvalorização do ser humano e da natureza, a total falta de compromisso com a verdade. Esse é um cenário extremamente difícil para se colocar em prática qualquer teoria que seja ainda mais o decolonialismo, pensando em um país tão enraizado nas suas tradições coloniais, que nega, ainda hoje, sua diversidade cultural e étnica.
 
Hoje, pensando o lugar no qual eu falo e a universidade no qual estudo (FURG), imagino que seja muito difícil cumprir com a proposta decolonial. Em primeiro lugar porque a FURG e os cursos em sua grande maioria não cumpre com a extensão, ou seja, poucas coisas que são produzidos dentro da universidade consegue ter uma influencia significativa na comunidade rio-grandense. Em segundo lugar porque os sujeitos subalternizados, colonizados, periféricos não estão dentro da universidade, de modo que as problemáticas desses sujeitos não estão sendo discutidas ou estão sendo pautadas por aqueles que, sequer conhece ou reconhecem a realidade imediata dessas pessoas, levando em consideração que muitos estudantes da FURG não são da cidade, ou do Estado do RS. Como eu, que sou de São Paulo, que tive uma criação e uma construção de realidade totalmente as avessas do que a de um riograndino. Isso me levou a um beco, que até então pensava ser sem saída.
 
Isso me leva à experiência no qual inicio o texto, sendo ela um divisor de águas no que diz respeito a minha compreensão sobre o decolonialismo e sua efetividade. A proposta de nossa visita na comunidade indígena Tekoa Yvy‘ã Poty era a de vivenciar a cultura e os saberes dos povos guarani, além de conhecer a realidade difícil no qual essas comunidades estão submetidas em nosso país. E estabelecer um círculo de colaboração mutua, no qual, nós ―juruas‖ pudéssemos ajudá-los a resistir através da prática cultural e de seus saberes, tanto eles, guaranis, pudessem nos ajudar com outra perspectiva de como levar a vida e propor outra relação com as pessoas e a natureza ao nosso redor.
 
E foi na prática, no fazer, no viver que o decolonialismo aconteceu pra mim. Não foi na universidade, apesar de ela ter um papel importante na minha compreensão sobre o tema. E desde nossa chegada a comunidade, fomos orientados a viver como eles, a comer como eles, a entender e respeitar sua cultura e saberes como se fosse nossa, e de fato é. Nesse momento ficou claro o caráter político e prático do decolonialismo, porque é na relação com o outro, é na prática direta de outra forma de ser e estar no mundo que aos poucos as estruturas coloniais vão caindo uma após a outra dentro de nossa construção de mundo. Nos povos originários dessa terra, pude ter uma outra compreensão sobre mim, pude enxergar neles minha descendência indígena, que reflete não só a mim mas meu irmão, meu pai, minha avó, a mãe de minha avó, todos eles que carregam com si os traços dos povos originários desse país.
 
Pra mim, o decolonialismo aconteceu a partir do momento que pude me reconhecer através da vivência da cultura e dos saberes desses povos, pude me reconectar com a terra, coisa que a lógica eurocentrada se afasta completamente. Diante disso concluo esse texto, relatando para todos que um dia ler essas palavras, o decolonialismo não está só na produção teórica, na realidade muito pouco está contido nisso. O decolonialismo está na prática e na vivência de outros saberes e culturas que nasce da terra do nosso país, ou aqueles que durante nossa história foi renegada por não ser branco o suficiente, ou por não reter uma grande quantidade de bens materiais, elementos puramente eurocentrados e colonizatórios.


Para saber mais sobre o Dossiê Temático “Decolonialidade” (Ed. 1/2019), clique aqui.


Escrito por: Guilherme Almeida

Estudante de História - Licenciatura pela Universidade Federal do Rio Grande, no atual momento estou cursando o último ano da Graduação. Minha linha de pesquisa se concentra na área da Educação.

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