Dossiê Temático ed. 1: O engano que descortinou potências

Por Rachel Hidalgo em 26 de outubro de 2019

 

Os estudos sobre o movimento decolonialista apareceram, para mim, inicialmente, sem chamar tanta a atenção. Sua semelhança às críticas que já vinham sendo discutidas em outros contextos embalou o tal Giro Decolonial‖ (BALLESTRIN,2013) entre as propostas que, vez ou outra, surgem na academia mas que, sobremaneira, não apontam para uma direção tão diferente assim. Entretanto, bastou um olhar mais demorado para o meu próprio raio de ação – no universo da Educomunicação – para perceber uma oportunidade de atualização do meu trabalho.
 
Em primeiro momento, ocorreu a percepção de que muitos/as colegas andavam debatendo sobre um esforço multifacetado produzido nos últimos anos por um grupo de estudos, entre os temas envolvidos, o questionamento sobre a história européia ser vista como a História Universal. Para quem vinha lendo a bibliografia de Walter Benjamin (1984) durante todo o mestrado, e sua pioneira desarticulação do discurso vigente para dar voz aos/às excluídos/as da História do Mundo (LOWY, 2005), não havia qualquer novidade.
 
Já os outros pontos de interesse do movimento, como “[…] la exigencia de abrir las ciencias sociales‘; los aportes de los estudios subalternos de la India; la producción de intelectuales africanos” (LANDER, 2000) e etc, soavam somente como mais um grito de reconhecimento de outros horizontes epistemológicos há muito bradado pelas pesquisas de orientação feministas (BANDEIRA, 2008). Dessa forma, novamente, o assunto não despertou nenhuma nova conexão.
 
O repensar a literatura do movimento decolonialista me ocorreu somente depois do convite para organizar o Festival de Cinema Decolonial, realizado pelo Núcleo em Ecologia e Desenvolvimento Sócio-Ambiental de Macaé – NUPEM/UFRJ. O evento já tinha seu propósito original: trabalhar propostas decolonialistas; e eu também já tinha minha própria maneira de organizar uma dinâmica audiovisual: apresentar determinadas ferramentas do Cinema Documentário (NICHOLS, 2005) para desenvolver processos de ensino-aprendizagem. E o acordo entre os dois mundos se deu na reflexão da temática durante a elaboração da ideia que fosse guiar a prática de produção audiovisual.
 
E tudo corria dentro do esperado até eu me dar conta de que, apesar de toda discussão que emergiu a partir das novas provocações, o fazer audiovisual que eu estava oferecendo para aquele público, não havia sido repensado por esta mesma perspectiva: afinal, a partir de quem venho falando nessa dimensão mais prática do meu trabalho? Notei que ela foi separada como uma ―velha ferramenta‖ a qual eu lançava mão independente das reflexões que promovia nos outros momentos da dinâmica, que, de início, conta sempre com um movimento de diálogo. Assim, a minha prática foi reduzida pela tal ―eficacia naturalizadora‖ (LANDER, 2000) apontada por estes novos estudos.
 
De acordo com Edgardo Lander (2000), essa potência naturalizadora se dá em duas dimensões: a primeira ocorre através da legitimação automática do discurso ocidental e a forma como se construiu o conhecimento a partir daí; e a segunda, pela maneira como se articulam tais saberes constituídos neste contexto com as relações de poder no mundo moderno (LANDER, 2000, p. 14). E, por mais que eu já tivesse passado por ambas reflexões em âmbitos distintos, não tinha percebido o ―elefante branco‖ no meio da minha sala de aula.
 
A colaboração latino-americana para o cinema mundial foi, e ainda é realizada, a partir de um contexto político e econômico que tem fortes implicações em seu desenvolvimento artístico. Nesse sentido, as criações nasceram, sim, da falta de recursos, assim como também de um contexto cultural específico, que tem a sua própria forma de ver o mundo por meio de uma lente. Então, há encadeamentos importantes nesse processo que descortinam um outro Cinema.
 
Por fim, revi as minhas possibilidades de atuação no universo da produção audiovisual; rememorei tantos/as artistas importantes, entre Argentina, Uruguai e, principalmente, o Brasil, que já contribuíram para o campo de trabalho com esse suporte; ressignifiquei meu próprio discurso sobre, justamente, não se tratar apenas de um suporte e ter tantas outras potências a oferecer para além de sua produção mecanizada.
 
Eu, particularmente, não penso que o conhecimento produzido pelo campo das Ciências Humanas tenha estacionado – como se quer fazer acreditar uma grande parcela de conservadores/as na atual gestão do governo brasileiro, por exemplo. Porém, não há como negar que as naturais repetições em nossas áreas alcancem fases de conforto, quase imperceptíveis para quem as pratica. Ainda mais quando, às nossas familiares propostas, acrescentam-se temas contemporâneos e que carregam, em seus dados momentos, os novos ares que trazem a sensação de movimento.
 
Para concluir, não me anuncio como uma pesquisadora agora atrelada aos estudos decolonialistas. Aqui mesmo se poderá notar que não pude, e nem sei se um dia o farei por completo, me desvencilhar de autores/as fora das Américas Latinas. Outrossim, recordo que a tentativa de ignorar pré-concepções, ainda que muito bem embasadas, é largamente benéfico para a reorganização do nosso pensamento. Da mesma forma como foi preciso que alguém, como César Charlone, diretor de fotografia do “Cidade de Deus” (2000), colocasse a sua câmera presa ao cabo de uma vassoura, “só para ver como fica”, criando, assim, um recurso improvisado que causou grande efeito na linguagem audiovisual, mudar as coisas de lugar para observar de diferentes ângulos é, de fato, o que se espera de nós estudiosos/as dentro da academia. Por isso, pensemos uma vez mais.


Para saber mais sobre o Dossiê Temático “Decolonialidade” (Ed. 1/2019), clique aqui.



Escrito por: Rachel Hidalgo

Graduação em Comunicação Social (UNISANTOS), licencianda em Artes Visuais (UNIP), mestrado em Educação Ambiental (CAPES/FURG) e doutoranda no mesmo programa (CNPq/FURG). Tema de pesquisa: Educomunicação Socioambiental por meio do suporte audiovisual.

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