A civilidade e seus modos de tratamento dos mortos

Por Ribombo em 9 de junho de 2019

 
O presente texto visa apresentar, de forma breve, uma discussão sobre a inserção e ou adoção de novos modelos sociais ao redor da morte como acontecimento no âmbito do universo urbano da cidade portuária de Rio Grande no século XIX sob a égide do processo civilizacional.
 
A adequação dos sujeitos aos pressupostos da civilidade era buscada em terras brasileiras durante o oitocentos, com o ápice localizado no Rio de Janeiro, e, como ocorreu por lá, assim também em Rio Grande a alta sociedade via os “parisienses como uma escola de boas maneiras” (NEEDELL, 1993, p.197) onde se adquiriam os bons costumes, modos e racionalidade que deveriam ser introduzidos no Brasil, importando modelos europeus de convivência a terras tropicais. A civilidade, no seu conceito vago, exerceu diferentes funções sobre o espaço social, seja estruturando representações no geral, definindo ações, modos, pensamentos e comportamentos sobre o que pode ou não e como o devem ser feitos. Além de, consequentemente, definirem e naturalizarem inclinações e afetos perante este mesmo mundo construído por ela.  Esta cidade civilizada e moderna que se quer é capturada pelas posturas e relatórios da câmara ao expressarem as visões e objetivos a serem alcançados, os quais definiriam a sociedade que estava por um “vir-a-ser”. São novas apreensões sobre o espaço urbano que serão transpostas para os ritos fúnebres, os mortos, os cemitérios, as doenças e as relações dos vivos com estes domínios a partir destas novas conjecturas civilizacionais.
 
O estudo de Paulo Sérgio Andrade Quaresma (1999) demonstra que o cadáver era alocado num caixão para ser transportado até a igreja e assim ter sua alma encomendada, seguindo então para o sepultamento (QUARESMA, 1999, p.34). Segue-se nisso o cortejo que acompanhava o corpo até o enterro, no qual não se limitava aos familiares e amigos. A linha entre público e privada é borrada e difusa durante o século estudado, assim junto a este momento de despedida juntavam-se mendigos e pobres, que podiam ser contratados via pedido do falecido, assim como transeuntes (REIS, 1997, p.117) além de portadores de tochas e velas assim como de outros utensílios que serviam tanto como demonstração de poder econômico como também meios simbólicos entre os vivos e os mortos, somam-se os padres, cocheiros, parentes, criados e ainda uma banda que acompanhava o cortejo até a igreja, sendo as principais “o Club Diógenes, o Club Mina Genuíno, a Filarmônica Lyra Artística, a Banda Duas Coroas e a Sociedade Musical Floresta RioGrandense” (QUARESMA, 1999, p.39), como diz Reis (1997, p.120): “todo funeral respeitável devia ter orquestra. Nada mais espetacular e saudável do que morrer com música”. Participavam também as sociedades, agremiações e ordens religiosas que auxiliavam seus membros tanto com os ritos fúnebres como covas para o enterro, assim como auxílio financeiro às viúvas ou irmãos dos mortos. O defunto era levado em um caixão ou liteira abertos, expondo o corpo o qual poderia estar maquiado com lábios e face avermelhados, também a própria carruagem podia ser enfeitada com panos e flores. Assim ocorria o cortejo e as homenagens, o que se via ao redor do morto era um espaço de socialização onde os membros da cidade participavam ou como atores ou como espectadores.
 
Se é possível imaginar a facilidade com a qual o caos poderia surgir deste meio. O poder público teve de intervir, por exemplo, através do “Art. 187. Conduzir os cadáveres descobertos, ou indecentemente; Penas de seis a dezoito mil réis” (POSTURAS, 1849, p.28). A lei foi reforçada uma vez mais quando da criação do novo cemitério, no qual a Santa Casa proibia a “condução de ‘cadáveres em redes, panos, esteiras ou caixões abertos e descobertos, sob a multa de 20$000 […]Não são compreendidos os anjinhos e moças donzelas que forem levadas decentemente em caixões com tampa aberta'”(TORRES, 2006, p.132). O reforço da lei, está que momentos de crise abatiam a cidade, ou seja, de epidemias:“[…] devido aos surtos epidêmicos e à exalação de supostos fluídos miasmáticos pelos cadáveres, ocorre uma necessidade de transferência para uma distância ‘satisfatoriamente saudável’ dos mortos” (QUARESMA, 1999, p.37).Essa tal “distância satisfatoriamente saudável”, é uma distância socialmente demarcada que implicará novas mudanças comportamentais dos ocupantes da cidade moderna já que a objetividade das estruturas espaciais está inscrita nas subjetividades que são resultado, em parte, da incorporação dessas mesmas estruturas objetivas (BOURDIEU, 2013, p.135).
 
As demarcações de espaço não passam pelo crivo do aparato religioso, o problema agora é dos químicos e dos profissionais técnicos da saúde. São estes novos agentes, dotados de uma legitimidade discursiva que regulam os domínios dos mortos, o distanciamento entre estes mundos pela teoria dos miasmas é um dos exemplos da potência e eficácia do processo civilizador sobre um espaço urbano. As crenças populares sobre concepções médicas junto à teoria dos miasmas declaravam que a decomposição dos corpos (cadáveres) produzia gáses pestilentos que feriam a saúde dos vivos.
 
Assim o espaço entre os vivos e os mortos foi sendo fisicamente cada vez mais separado, resultado das epidemias associado aos discursos higienistas, ocorrendo uma inversão, o apreço pelos mortos começa a ser “substituído pelo apreço à saúde dos vivos. O cemitério é visto como um dos lugares de formação e difusão dos fenômenos epidêmicos ou endêmicos no espaço urbano” (CRUZ, 1998, p.121). Nasce uma constante preocupação com os mortos, desde 1849 se pode percebê-la passando pelos relatórios com o ano de 1855 sendo o ponto principal para essa inversão com a quebra da barreira da cidade (trincheiras) já que o cemitério do Bom Fim entrou em colapso, devido à alta nos números de sepultamentos ocorridos em consequência da epidemia de cólera (NOGUEZ, 2015, p.44). Era necessário limpar o ar, alocar os defuntos para longe do perímetro urbano, pois “No cemitério-modelo dos reformadores funerários, a virtude cívica substituiria a devoção religiosa” (REIS, 1997, p.134). O cheiro exalado pelos corpos inanimados não era mais bem vindo entre a população, a tolerância ao odor da morte não estava mais contida nas disposições dos agentes, 1855 foi o ponto principal neste processo por ser o momento em queo número de óbitos era tão grande que o mau cheiro que exalava dos cemitérios impedia o viver normalmente. Nesse tempo, a Câmara autorizou o funcionamento precário do cemitério, dito extramuros […] (QUARESMA, 1999, p.37). Frente a epidemia de 1855 o cemitério extramuros (Geral) foi rapidamente inaugurado (TORRES, 2006, p.127), assim a proteção militar da cidade cedeu diante dos corpos mortos, afastados dos sentidos dos citadinos que já não as suportavam.
 
O movimento que vai individualizando e empurrando mais e mais para os bastidores da vida social (Elias, 2001, p.12) e privatizando para o centro familiar a morte, é produto resultante destas novas percepções, esse aspecto da natureza humana foi sendo empurrada para outras esferas da vida privada e para outras espécies de socialização através da laicização (RELATÓRIO, 1896, p.8).O afastamento da morte teve sua emergência na cidade de Rio Grande em meio ao século XIX, com os discursos civilizacionais sendo postos em prática a partir do poder público, das percepções sobre a urbe e objetivado imediatamente na construção do novo cemitério.
 
A adoção dos princípios civilizacionais traz consigo a emergência de novos problemas, exatamente por este processo estar operando sobre as categorias de classificação do espaço social em seus agentes, a civilidade foi um trabalho coletivo que respondia a novas necessidades cuja importância ela mesma revelou e a qual apontou as soluções (REVEL,1994, p.176).  A organização civilizada do espaço urbano expulsa dois mundos que até então viviam em proximidade para encaixá-los em uma tecnologia que os visa como corpo biológico e classificado, imprimindo um arsenal de símbolos que justificam e ordenam uma nova realidade social. Ironicamente o cemitério, hoje em dia, se encontra em uma área rodeada de casas, prédios, comércio e carros; sua localidade, ainda que estagnada ao longo dos anos, acabou sendo reintegrada a vida pulsante da cidade.
 
Bibliografia:
  • BOURDIEU, Pierre. Espaço  físico,  espaço  social  e  espaço  físico  apropriado.  In:  Estudos Avançados, v. 27, n. 79, p.133-144, 2013.
  • DELLA  CRUZ,  Gisele  Thiel. As  misérias  da  cidade: população,  saúde  e  doença  em Rio  Grande  no  final  do  século  XIX.  Dissertação  (Mestrado)    Curso  de  História, Universidade Federal do Paraná, Curitiba, 1998.
  • ELIAS, Norbert. A solidão dos moribundos: seguido de ‘envelhecer e morrer’.: Zahar. 2001, 61 f.
  • NEEDELL,  Jeffrey.  D. Belle  époque  tropical: Sociedade  e  cultura  de  elite  no  Rio  de Janeiro na virada do século. São Paulo: Companhia das Letras, 1993.
  • NOGUEZ,  Everton  Luis  Bicca. Gênese  e  transformação  do  bairro  cidade  nova  no município  do  Rio  Grande/RS.  Dissertação  (Mestrado)    Curso  de  Geografia, Universidade Federal do Rio Grande, Rio Grande, 2015.
  • QUARESMA, Paulo Sergio Andrade. Urbe em tempos de varíola: a cidade do Rio Grande (RS) durante a epidêmia de 1904-1905. 186 f. Dissertação (Mestrado) – Curso de História, Universidade Federal de Pelotas, Pelotas, 2012.)
  • REIS, João José. O cotidiano da morte no Brasil oitocentista. In: ALENCASTRO, Luiz Felipe de (Org.). História da vida privada no Brasil Império: a corte e a modernidade nacional. São Paulo: Companhia  das Letras, 1997. p. 95 -142.
  • REVEL, Jacques. Os usos da civilidade. In: ARIÈS, Philippe; DUBY, Georges (Org.). História da vida privada 3: Da renascença ao século das luzes. São Paulo: Companhia das Letras, 2009. p. 169-210.
  • TORRES, Luiz Henrique. A morte é o centro das atenções: o regimento do cemitério extramuros (1859). In: Revista Biblos: revista do instituto de ciências humanas e da informação, Rio Grande, v. 19, p.127-133, 2006. Disponível em: <https://periodicos.furg.br/biblos/index>.

Fontes:

  • Relatórios da Câmara da cidade de Rio Grande, contendo os anos de 1849 e 1896.

Douglas Nunes


Escrito por: Ribombo

Ribombo é o nome dado a um novo grupo de pesquisa e estudos criado em 2018 e resulta do envolvimento com investigações, atividades de ensino, extensão e de gestão em políticas públicas em educação ambiental ao longo das últimas duas décadas. Como perspectiva, busca estudar os fundamentos da EA, bem como a educação ambiental articulada ao tema das mudanças ambientais globais, fenômeno que traspassa a experiência civilizatória contemporânea, e a questão dos objetivos do desenvolvimento sustentável. Utiliza o blog como uma das suas estratégias de comunicação e intercâmbio, buscando publicizar a produção acadêmica, disseminar informações e socializar fontes de pesquisa e a produção de material audiovisual.

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