Experiência formativa em Educomunicação Socioambiental no I Encontro Textos e Contextos da Docência, na FURG

Por Rachel Hidalgo em 20 de maio de 2019

 

Rachel Hidalgo no CIDEC-SUL/FURG

Nos últimos dias 13 e 14 de maio, aconteceu no auditório CIDEC, da Universidade Federal do Rio Grande – FURG, o I Encontro Textos e Contextos da Docência, que envolveu discussões teóricas e práticas sobre sobre a docência contemporânea. Foi uma boa oportunidade de dialogar com outros/as educadores/as, de diferentes contextos de atuação, sobre pesquisas que o Ribombo realiza na região Sul, além de tornar-se um espaço de discussão sobre a importância do dia 15 de maio: quando estudantes de todo o País planejavam ir às ruas pela Educação.

O evento, com intenção de reunir estudos e pesquisas acadêmicas para possibilitar a democratização do acesso aos conhecimentos produzidos para estudantes de graduação, de pós-graduação, e ainda, para educadores/as da rede básica de ensino, contou com mais de 100 apresentações entre os dois dias. Foi nesse contexto que eu, Rachel Hidalgo, do Ribombo, pude compartilhar pela primeira vez alguns dos resultados que venho manejando a partir de atividades de formação em Educomunicação Socioambiental na cidade de Joinville-SC, em parceria com o colega Felipe Nóbrega e orientador José Vicente de Freitas.

Desde 2012, a rede pública municipal da cidade catarinense implementa uma política educacional alicerçada em parâmetros qualitativos, tendo como referências organismos internacionais como a Organização das Nações Unidas (ONU) e UNESCO. A partir de 2015, com a criação dos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS’s) e seus dezessete itens basilares, os Centros de Educação Infantil (CEI’s) da rede pública passaram a construir um horizonte pedagógico baseado na premissa da Sustentabilidade, integrando-se, assim, a uma agenda de longo prazo até o ano de 2030.

Foi assim que nós, do Grupo de Pesquisa Ribombo, iniciamos um trabalho de mediação e formação continuada com o corpo docente do lugar. Contando com a nossa vinculação ao Programa de Pós-Graduação em Educação Ambiental (PPGEA/FURG), pela qual trabalhamos com gestão e educação ambiental, mudanças climáticas e os Objetivos do Desenvolvimento Sustentável em áreas litorâneas por meio de uma equipe interdisciplinar, passamos a nos relacionar com a rede joinvillense, de maneira a abrir um diálogo efetivo entre a academia e a comunidade escolar.

Tal parceria visa a instrumentalização desses/as profissionais junto a metodologias contemporâneas que aproximem a rede das metas estabelecidas pelos ODS’s, e assim foi criado um trabalho formativo por meio de oficinas de produção audiovisual, alicerçadas nas premissas da Educomunicação Socioambiental, e fazendo uso da câmera do celular como ferramenta de aplicação a ser utilizada nesse momento, e na replicação desse tipo de trabalho.

As primeiras oficinas, que ocorreram em agosto de 2018 durante a 7ª Semana Nacional de Educação Infantil de Joinville, serviram como um primeiro contato. Abrimos com uma conversa “de professor/a para professor/a”, mediada pelo professor Felipe Nóbrega, em que se falou sobre o uso de celular na sala de aula e algumas de suas problematizações; uma breve contextualização sobre os recursos técnicos e humanos dos quais dispunham a rede naquele momento; além de exposição sobre os 17 ODS’s e as suas relações no âmbito da cidade. 

Felipe Nóbrega no Teatro Juarez Machado – Joinville/SC

 

O segundo momento era formado por uma aula teórico-prática sobre o conceito de Educomunicação e a produção audiovisual, com mediação do professor de Cinema Luciano Oschelski e eu, com formação em Comunicação Social e experiência em oficinas de capacitação audiovisual na educação não-formal. Nesta fase, falamos sobre a identificação do fenômeno educomunicativo e compartilhamos algumas ferramentas de forma simplificada, como produção de roteiro, criação de fotoboard, dicas de gravação e outros, com o objetivo de que os/as participantes formassem pequenos grupos e realizassem um curta metragem com seus smartphones. Ao final, com a produção de 9 curtinhas – que tinham como temática principal um ou mais ODS’s – assistimos e compartilhamos algumas impressões sobre a experiência e a possibilidade de replicar em seus contextos escolares. 

Como esta era a primeira vez que realizávamos, juntos/as, uma oficina com educadores/as, a seleção dos instrumentos audiovisuais aconteceu em caráter exploratório. Afinal, a intenção era observar o quê, de tudo aquilo que estávamos dividindo, os/as professores/as vislumbrariam como metodologia possível em seus espaços. Dessas atividades, também concebemos uma primeira versão da Apostila de Produção Audiovisual que estamos criando em conjunto com a rede.

Após essa realização, passamos a refletir sobre o processo em grupo e em comunicação com os/as professores/as envolvidos/as através de e-mails. Assim, chegamos a uma segunda edição da mesma atividade formativa, dessa vez, abrindo maior espaço para a exposição de ferramentas audiovisuais, como a criação de planos, enquadramentos, arco dramático por meio de três atos simplificados e outros. Também optamos por oportunizar um tempo mais longo para a gravação dos filmes em grupos, com a participação de gestores/as da rede, além dos/as professores/as.

Tais atividades ocorreram com um maior número de envolvidos/as no Centro de Educação Continuada dos Professores da Educação de Joinville, em março deste ano, por cinco dias, resultando em mais 16 curtas. No período da manhã, eram expostos alguns dados do IDEB, para depois iniciar a ponte para o fazer do magistério – um momento estratégico em que nos debruçamos ao acolhimento à classe de professores/as por meio do professor que é nosso porta voz neste momento: “Nessa conexão basicamente de uma linguagem que circula entre nós, em que códigos mínimos do cotidiano parecem ser universais dentro da categoria, e denotam uma aproximação importante para o processo formativo”, explica Nóbrega sobre a importância desta fase da atividade.
Segunda edição das atividades formativas no Centro de Educação Continuada dos Professores da Educação de Joinville/SC

No final da manhã, Oschelski e eu éramos os/as responsáveis por introduzir o conceito de Educomunicação por meio do suporte audiovisual e prepará-los/as para a atividade prática que era realizada na parte da tarde. Após o intervalo do almoço, era o momento em que eu enxergava a turma de duas maneiras: a primeira, em que percebia certa empolgação por um primeiro contato com as ferramentas do cinema, não somente por curiosidade sobre o assunto, mas pelo contato com algo que poderia aproximá-los/as com maior efetividade de seus educandos/as; e a segunda, em que, claramente, podia-se notar uma desconfiança de que sentiam que, não, não seriam capazes de replicar uma prática que parecia depender totalmente de um saber especializado. 
 
E o primeiro desafio, então, era derrubar essa resistência. E isso trilhamos por meio de uma conversa sobre a popularização dos smartphones e a cultura contemporânea de nossas sociedades, já tão acostumadas com o manejo do registro de imagens pelo celular. “A grande maioria de nós tem um aparelho em mãos que, por acaso, tem um aplicativo para ligações, pois o que mais fazemos com ele é registrar nossos momentos. Não somente os/as mais jovens, todos/as estamos inseridos/as nesse contexto sócio-histórico”, eu dizia em certo momento de minha fala. E assim, depois de transpor, em certa medida, essa primeira barreira, a tentativa era a de familiarizá-los/as com aqueles conhecimentos que, sim, eram especializados, e nós estávamos ali para compartilhá-los com ênfase na experiência, isto é, do ato de, coletivamente, elaborar um material pedagógico que tanto comunica sobre algo como exerce significado a quem produz. Mais do que o produto final, a relevância do suporte audiovisual está no estar junto ao longo do processo, tornando significativa a experiência que não possui um final, mas sim transforma-se em um ponto de partida para o diálogo democrático e crítico daquilo que foi problematizado. E isso, sabemos, faz parte do domínio do/a educador/a.
 
Atividades formativas no Centro de Educação Continuada dos Professores da Educação de Joinville/SC
Inserindo maior número de elementos do universo cinematográfico, observamos, então, um desenvolvimento de conteúdo mais elaborado pela apropriação dos recursos, além de maior expectativa de que a prática fosse multiplicada além daquele espaço formativo.
 
Das duas experiências, criamos um acervo de 25 curtas metragens, que ilustram a nossa trilha de estudos sobre o assunto na rede pública de ensino de Joinville. Tais resultados culminam no aperfeiçoamento da Apostila da Produção Audiovisual mencionada anteriormente, ainda em fase de produção e complexificação de sua abordagem pedagógica. 
 
Esta foi a experiência apresentada no evento que se configura como o primeiro exercício de reflexão tanto sobre essa experiência de mediação junto aos/as docentes, como também da apreciação dos dados que foram coletados ao longo desse período. Tal texto poderá ser acessado, em breve, nos anais do I Encontro Textos e Contextos da Docência.
 
Manifestação que ocorreu na cidade de Pelotas – RS

Cabe salientar que, no dia seguinte, muitos/as de nós fomos às ruas somar ao corpo de estudantes,  educadores/as e trabalhadores/as que protestaram contra os cortes de verbas às universidades públicas. Afinal, os sucessivos cortes no repasse de verbas na educação, anunciados pelo Ministério da Educação na atual gestão, impede que nós, pesquisadores/as que não fazem parte de uma elite econômica, justamente, possamos continuar trabalhos como esse que foi narrado aqui neste texto.

Defendemos que é necessário representatividade da camada mais desfavorecida das sociedades nas universidades para lograr refletir e enxergar com efetividade os pontos de convergência entre a produção acadêmica e a responsabilidade social das pesquisas. Ademais, é direito de todo/a cidadão/ã o acesso gratuito e de qualidade à educação. 

Seguimos trabalhando. 

Escrito por: Rachel Hidalgo

Graduação em Comunicação Social (UNISANTOS), licencianda em Artes Visuais (UNIP), mestrado em Educação Ambiental (CAPES/FURG) e doutoranda no mesmo programa (CNPq/FURG). Tema de pesquisa: Educomunicação Socioambiental por meio do suporte audiovisual.

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