Resenha: Wonder Whale: a commodity, a monster, a show and na icon

Por Felipe Nobrega em 26 de maio de 2019

Ler o texto Wonder Whale: a commodity, a monster, a show and na icon, das pesquisadoras Cristina Brito, Nina Vieira e Joana Gaspar de Freitas¹ é estar diante de um singular objeto de pesquisa para regiões costeiras, ao mesmo tempo em que uma demonstração ousada dos rumos de uma Educação Ambiental em suas bases epistemológicas interdisciplinares. No primeiro caso, o que está em cena é a inserção dos animais marinhos dentro de um contexto interpretativo pouquíssimo explorado no que tange ao estudo dos oceanos em sua imbricação com a liminaridade terrestre; enquanto por outra perspectiva o estudo parece apontar um caminho interessante para a superação de algumas questões que permeiam a escrita histórica junto ao campo da Educação Ambiental (EA).


Publicado pela Revista Anthropozoologica no primeiro semestre de 2019², o artigo problematiza a historicidade das baleias desde o século XIII, na verdade, traz à tona como diferentes representações humanas projetavam, a partir da figura desses mamíferos aquáticos, as próprias relações que estabeleciam com o Oceano enquanto elemento natural que os cercava. As autoras chegam até os dias atuais, quando tal animal pode ser visto, por exemplo, em propagandas e ações de marketing que envolvem campanhas sobre as mudanças climáticas globais.

As pesquisadoras problematizam os motivos que levam tantas pessoas a praias que são famosas por ser possível encontrar baleias mortas, transformando em atrativo turístico um processo de morte. É desse ponto que inicia uma série de digressões históricas acerca das baleias que visam comprovar que é possível extrair a partir desse “objeto” como o ambiente marinho, e seus recursos, determinaram preferências, práticas e manejos por parte dos sujeitos em seus contextos temporais específicos em relação ao oceano.



E aqui cabe uma rápida reflexão, a qual diz respeito ao universo geográfico que se está falando. É o Oceano Atlântico que está em cena, basicamente. Assim, é possível perceber que estamos diante de um trabalho que reivindica uma trama calcada na perspectiva da modernidade europeia, a mesma que faz das era das navegações um recorte histórico particular. Ou seja, outros oceanos, outros mares, não se há de negar, podem promover outras histórias diferentes dessa que Brito, Vieira e Freitas nos apresentam.

Dito isso, é preciso referenciar também que, ao contrário de polemizar com as Ciências Naturais, o que está posto é uma possibilidade de intersecção com um campo do conhecimento que produziu significativo acúmulo científico sobre tal tema. Reconhece-se nas descrições biológicas desses animais, e a relação desses com os oceanos, um ponto de partida para propor uma interpretação vinculada às humanidades.

O que entra em questão é a ideia da percepção ambiental em cada contexto histórico, e isso levando em consideração as baleias sendo representadas em diferentes suportes. Daí a utilização da literatura (Moby Dick, claro!) clássica, mas, sobretudo, dos relatos e crônicas de viagem, de documentação histórica científica oriunda de diferentes arquivos históricos, como fontes que traduzem uma sensibilidade ambiental que em muito contribui para repensarmos nossas relações com os oceanos, e em especial, com os animais marinhos que parecem invisíveis junto às narrativas históricas costeiras.



E aqui cabe a segunda e última reflexão que o texto traz, e essa diz respeito à contribuição para a Educação Ambiental. Campo de origem epistemológica interdisciplinar, está na reunião de diferentes construções de saberes a sua maior potência. Isso pode ser visto como bom sinal de construção holística das ciências, apresentando algo diferente do tradicional saber cartesiano que individualiza os campos até que eles pareçam, muitas vezes, incomunicáveis tamanhas se tornam especializações que mostram mais uma disputa já anunciada anos atrás por Pierre Bourdieu³, do que qualquer tipo de contribuição qualitativa sobre determinado assunto.

Um caso comum à EA é a incorporação de elementos da História, e com isso a criação de uma espécie de ramificação que atende pelo nome de História Ambiental. Em uma transposição geralmente automática, arrisco a dizer tão somente pelo adjetivo “Ambiental” em ambas as nomenclaturas, passa-se a conceber como EA todo e qualquer trabalho que tenha como objeto de pesquisa elementos da natureza. Pouco importa se problematização, teorias, aportes metodológicos baseados na premissa de fontes como recursos narrativos, e mesmo hipóteses estejam em tudo fincadas no campo da História, o que prevalece é fazer a aproximação que só aparentemente parece possível aos termos da EA.

Cabe ressaltar que, o interesse aqui não é discutir a História Ambiental em sua constituição, mas sim como a Educação Ambiental se vale de problematizações oriundas de uma matriz histórica baseada na perspectiva do tempo e espaço para problematizar o ambiente. Cabe à disciplina histórica, igualmente, fazer essa discussão em seus próprios termos diante de uma relação que há algumas décadas perpassa seus tensionamentos epistemológicos.

E nesse sentido, Wonder Whale… traz um interessante exercício de, mesmo sem anunciar de forma explícita, trazer à EA o que parece ser tão somente uma curiosidade histórica. Assim, ao utilizar as premissas da Percepção Ambiental baseada na obra de Tim Ingold, as autoras apontam para um trabalho de investigação que dialoga com a contemporaneidade quando compreende que tal epistemologia almeja não só pensar sempre sobre o presente, mas também repensar como seria possível construir outras bases de conhecimento que não os alicerçados no modelo tradicional de ciência.

No Brasil é Isabel Carvalho que trouxe ao campo da EA essa discussão, a partir do mesmo autor de referência, inclusive. Está na sua obra os apontamentos para o que compreende como o educador ambiental intérprete do sensível, que reconhece na investigação histórica uma importante ferramenta para a elaboração da narrativa ambiental. Ou seja, o escopo e o arcabouço está baseado no acúmulo do campo da EA, e não na inserção disso em outras bases epistêmicas – equívoco recorrente nos trabalhos que postulam essa imbricação.

E o trabalho de Brito, Vieira e Freitas consegue apresentar uma pesquisa em que alcança sucesso nessa empreitada difícil que é demonstrar alternativas que fujam da crítica por si só. Elas apresentam um trabalho consistente a partir de um elemento concreto, de um objeto de pesquisa propriamente dito que possa tornar visível “como” se pode repensar algumas estruturas de entendimento dentro do campo da EA.


¹Todas as pesquisadoras são vinculadas à Universidade de Lisboa, Portugal.

²Todas as imagens que ilustram o texto foram retiradas do próprio artigo em questão, onde estão devidamente creditadas
³ O poder simbólico. Difel, Lisboa, 1989.

Escrito por: Felipe Nobrega

Graduação em História (FURG), mestrado em História (UFRGS) e doutorando em Educação Ambiental (CAPES/FURG). Tema de pesquisa: Fenômenos Ambientais Costeiros e Mudanças Climáticas.

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